Apucarana, 17 de outubro de 1998.
Querida Clarice,
Sua carta chegou numa terça-feira. Li à noite, depois do jantar. Quase respondi na mesma hora, mas percebi que faria exatamente aquilo que você me pediu para não fazer: tentar consertar tudo depressa.
Então esperei.
Talvez porque eu também tenha medo de perguntas pequenas.
Você me perguntou se há dias em que me sinto estrangeiro dentro da própria vida.
Há.
Só que acho que aprendi a esconder isso de outro jeito.
Você teme incomodar. Eu temo falhar.
Passei boa parte da vida acreditando que, se eu fosse útil o bastante, ninguém teria motivo para desistir de mim.
Então resolvo problemas. Carrego caixas. Faço favores. Chego cedo. Fico até mais tarde. Digo “deixa comigo” antes mesmo de saber se dou conta.
É uma maneira bastante eficiente de parecer forte.
Também é cansativa.
Não sei descansar sem sentir culpa. Se passo uma tarde sem produzir nada, parece que desperdicei alguma coisa que não sei nomear. Se alguém precisa de mim, fico aliviado. Se ninguém precisa, começo a me perguntar para que sirvo.
Veja só que ironia: você passa os dias tentando acreditar que é amada. Eu, tentando provar que mereço ser.
Talvez sejamos dois tolos muito bem treinados.
Você escreveu que sente vergonha de precisar dos outros.
Eu sinto vergonha de admitir que preciso.
Não é exatamente a mesma coisa, mas talvez more na mesma rua.
Nunca fui bom em dizer “estou com medo”. Sempre achei mais fácil dizer “estou cansado”. Ninguém faz muitas perguntas quando um homem diz que está cansado. Parece trabalho. Parece responsabilidade. Parece até virtude.
Medo, não.
Medo parece fraqueza quando a gente passa a vida inteira fingindo saber onde está indo.
E eu não sei, Clarice.
Há dias em que também acordo sem nenhuma certeza. Há noites em que penso em todas as coisas que ainda podem dar errado. Há momentos em que recebo um elogio e, em vez de ficar feliz, penso apenas no próximo erro que preciso evitar.
Por isso, não vou lhe dizer para parar de sentir o que sente.
Não sei como se faz isso.
Também não vou escrever que você precisa pensar positivo, agradecer mais ou olhar para quem sofre pior. Acho cruéis essas frases que transformam dor em falta de esforço.
Posso lhe dizer apenas uma coisa com alguma certeza:
Você não me incomoda.
Eu não leio suas cartas por obrigação. Não respondo porque tenho pena. E não preciso que você esteja bem para continuar gostando de você.
Talvez seja isso que eu consiga oferecer.
Não sei como tirar você desse lugar, mas posso sentar um pouco aí.
E, quando sua cabeça disser que todos permaneceriam melhor sem o peso das suas dores, tente lembrar que nem sempre aquilo que sentimos sobre nós é verdade.
Continue escrevendo.
Mesmo nos dias em que achar que não tem nada importante para dizer.
Às vezes, continuar uma conversa já é uma maneira de permanecer.
Seu amigo,
Miguel.
P.S.: A receita do bolo segue junto desta carta. E, antes que você pergunte, a demora não foi pessoal.
Epístola ficcional sobre dores emocionais invisíveis. Se este texto tocar uma ferida sua, procure ajuda. CVV: 188.