O nome dele era Sérgio Lima.
E isso importa, porque ele não era um anônimo qualquer. Era alguém que você conhece.
Talvez seja você. Talvez sente ao seu lado no trabalho. Talvez compartilhe versículos, indignações e certezas absolutas no mesmo grupo de família. Sérgio não era exceção. Era regra. Tinha opinião formada sobre tudo, antes mesmo de terminar de ler qualquer coisa.
Sérgio acompanhava cada passo de Isabel Veloso, a jovem influencer que morreu aos 19 anos no dia 10 de janeiro de 2026, depois de anos de luta contra o câncer.
Desde o diagnóstico até as fotos no hospital, sempre com um comentário pronto, quase sempre moral. Contribuiu com a vaquinha. Fez questão de anunciar. Ajudar é bonito, mas ajudar em silêncio não rende engajamento. E Sérgio precisava ser visto como alguém do bem.
Quando veio a melhora, algo nele azedou. Não foi alívio. Foi desconfiança.
“Isso não fecha”, escreveu.
Disse que estava apenas sendo racional. Que hoje em dia ninguém pode acreditar em tudo.
Misturou ciência de WhatsApp, fé seletiva e aquela frase clássica: “não estou julgando, só questionando”. Sérgio sempre questionava a dor alheia. A própria, jamais.
Depois veio o filho.
Ali, Sérgio se sentiu investido de autoridade. Chamou de irresponsabilidade. Disse que era egoísmo. Que havia valores. Que o mundo estava perdido porque as pessoas não sabiam mais assumir consequências. Tudo isso entre um post inflamado sobre política, outro sobre Deus acima de tudo e mais um ataque a quem pensava diferente. Para Sérgio, Deus votava. Deus tinha lado. Deus concordava com ele.
A política não era um tema para Sérgio. Era identidade. Tudo passava por ali: doença, maternidade, morte, fé. Se alguém sofria do “lado errado”, o sofrimento vinha com suspeita embutida. Se contrariava o roteiro moral que ele defendia, então algo precisava estar errado. Ninguém podia escapar da narrativa. Nem uma menina com câncer.
Quando Isabel morreu, Sérgio escreveu algo bonito.
Falou em descanso. Em vontade divina. Em planos maiores. Usou versículos. Emojis de mãos em oração. Disse que agora ela estava em paz. E lembrou, como quem não quer nada, que ajudou na vaquinha. Afinal, era importante registrar que esteve do lado certo da história.
Não mencionou as mensagens cruéis. Não falou das acusações veladas. Não lembrou da pressa com que aguardou o desfecho. Porque Sérgio não esperava a morte dela por maldade. Esperava por coerência narrativa.
A vida real o incomodava justamente porque não obedecia ao roteiro que ele defendia com tanta convicção. Melhoras não combinam com tragédia. Filhos não combinam com paliativo. Esperança atrapalha o clímax.
Sérgio não chorou por Isabel. Chorou pelo fim da saga. Sem novos capítulos, sem atualizações, sem palco para a própria virtude, restou apenas o reflexo dele mesmo na tela apagada. E ali, por um instante breve e desconfortável, quase percebeu que sua bondade precisava de plateia, sua fé precisava de confirmação pública e sua indignação era menos amor ao próximo e mais apego à própria imagem.
Isabel morreu de uma doença do corpo. Mas nós seguimos vivos com uma doença social.
Um vírus que não aparece em exames, não sangra, não dói de imediato. Ele se espalha pela internet, se alimenta de algoritmo e mata lentamente a capacidade de sentir sem julgar. Talvez o maior escândalo não seja a morte precoce. Seja o desejo secreto de que ela aconteça, apenas para confirmar nossas certezas. O corpo dela perdeu uma luta injusta.
Nós estamos perdendo algo pior.
A humanidade.
E diferente do câncer, essa doença não parece nem interessar tratamento.