Gabrielly, talvez seja apenas a vidaDisseram à Gabrielly que ela havia perdido o brilho. Talvez quem disse estivesse sinceramente preocupado. Mas há palavras que, mesmo nascendo do cuidado, encontram exatamente a ferida que ninguém sabia existir. E fiquei pensando em quantas vezes confundimos as transformações dos outros com a perda daquilo que nos acostumamos a admirar.
Gabrielly é jovem, bonita, dessas pessoas que atraem olhares antes mesmo de pronunciarem uma palavra. E talvez esteja aí uma de suas primeiras injustiças. Vivemos numa sociedade que confunde beleza com felicidade, juventude com despreocupação e aparência com essência. Como se algumas pessoas precisassem justificar o direito de sofrer.
Talvez... Gabrielly tenha mesmo mudado. E daí? Quem foi que nos convenceu de que amadurecer significa conservar intacta a pessoa que fomos? Crescer também é abandonar certezas, perder ingenuidades e descobrir que o mundo é mais complicado do que imaginávamos. Às vezes, aquilo que chamamos de perda de brilho é apenas alguém aprendendo a enxergar a vida com outros olhos.
Existem anos que não passam simplesmente pelo calendário. Atravessam-nos. Levam algumas coisas, deixam outras e, quando terminam, já não somos exatamente aqueles que os começaram. Isso não significa que tenhamos nos perdido. Significa que estivemos vivos.
Gabrielly também tem sonhos. E sonhar, ao contrário do que nos ensinaram quando crianças, nem sempre é agradável. Sonhos produzem medo, exigem renúncias e nos colocam diante da possibilidade de fracassar. Sobretudo numa sociedade que insiste em medir pessoas pelos resultados que apresentam.
Talvez por isso uma palavra tão pequena carregue tanto sofrimento: ainda. Ainda não chegou. Ainda não conseguiu. Ainda não aconteceu. O problema começa quando o ainda se transforma em nunca dentro da nossa cabeça. Quando um resultado provisório parece uma sentença definitiva. Quando acreditamos que a vida só terá valor depois que determinada porta se abrir.
Gabrielly, não transforme o presente numa sala de espera do futuro. A vida está acontecendo agora, inclusive nos dias difíceis e nos recomeços que ninguém aplaude. Mas também não quero lhe pedir que desista de sonhar. Talvez eu seja um sonhador incorrigível, mas continuo acreditando que existem planos pelos quais vale a pena atravessar tempestades. Não porque o mundo nos deva recompensas, mas porque há algo profundamente humano em continuar tentando aquilo que verdadeiramente desejamos.
Se esse sonho ainda é seu, continue. Reconsidere as rotas, respeite seus limites, descanse quando precisar. Apenas não permita que o medo decida sozinho o seu destino. Porque existem perguntas que o tempo responde e outras que envelhecem conosco. Entre estas, poucas são tão dolorosas quanto aquelas que começam com duas palavras: e se?
E se eu tivesse tentado mais uma vez? E se aquele obstáculo não fosse o fim, mas apenas uma curva do caminho? Mudar de sonho também pode ser coragem. O que não podemos é confundir a exaustão de um momento com a impossibilidade de uma vida inteira.
E volto ao brilho de Gabrielly.
Talvez as pessoas tenham se acostumado tanto com a luz que ela oferecia que, quando precisou direcioná-la para o próprio caminho, imaginaram que estivesse apagando. É curioso como sentimos falta da alegria dos outros sem perceber que, às vezes, essa saudade diz mais sobre aquilo que deixamos de receber do que sobre aquilo que eles deixaram de ser.
Gabrielly, você não precisa sorrir para demonstrar força, nem conquistar alguma coisa para merecer admiração. Não precisa continuar sendo a menina de ontem para que reconheçam a mulher de hoje.
Se algum dia lhe disserem novamente que você mudou, não se apresse em pedir desculpas. Talvez seja apenas a vida, transformando-nos enquanto caminhamos.
E, quanto ao seu brilho, permita-me discordar de quem disse que você o perdeu.
Você apenas começou a descobrir que nem tudo merece a sua luz.
E talvez amadurecer seja justamente isso: compreender que também precisamos iluminar a nós mesmos.