Há uma cena silenciosa que se repete todos os dias: alguém deixa de tentar, de falar, de começar. Não por falta de capacidade, mas por excesso de plateia imaginária. É o medo de errar em público, de parecer ridículo, de decepcionar olhos que, na verdade, raramente estão voltados para nós. A verdade é menos confortável do que gostaríamos. E talvez mais libertadora do que aceitamos: ninguém liga.
Não no sentido romântico que as frases de efeito gostam de vender, mas no sentido bruto, quase indiferente da vida cotidiana. As pessoas estão ocupadas demais tentando não desmoronar por dentro para se dedicarem a observar, com atenção crítica, cada passo seu. Elas também estão com medo, também estão tentando parecer melhores do que se sentem, também estão evitando o próprio fracasso.
É aqui que Alfred Adler entra, não como um adorno intelectual, mas como um espelho pouco gentil: a maior parte das pessoas está preocupada consigo mesma. E isso desmonta uma das nossas desculpas favoritas. Porque, se ninguém está realmente olhando, o que sobra do medo?
Sobra o essencial: você. E essa é a parte que incomoda.
Nós gostamos de acreditar que não tentamos por causa do julgamento alheio. É uma justificativa elegante, socialmente aceita, quase nobre. Mas, na maioria das vezes, ela esconde algo menos heroico: o medo de confrontar a própria limitação, o receio de descobrir que talvez não sejamos tão bons quanto imaginamos, ou pior, que poderíamos ser melhores se tivéssemos tentado. É mais fácil culpar o olhar dos outros do que encarar o espelho.
Criamos, então, um teatro interno. Imaginamos críticas que não foram feitas, risos que não aconteceram, decepções que ninguém teve tempo de sentir. Construímos uma plateia inteira para justificar a nossa ausência no palco. E, enquanto isso, a vida segue - sem aplausos, mas também sem vaias. O fracasso que tanto tememos não ganha manchetes, não paralisa o mundo, não vira espetáculo. Ele passa, como passam as conversas de bar, as postagens esquecidas e as opiniões que duram menos que um dia. O erro, que parecia um escândalo iminente, dissolve-se na rotina alheia como mais um detalhe irrelevante.
Mas o não fazer… esse permanece. Permanece como uma espécie de ruído baixo, constante, que insiste em lembrar tudo aquilo que poderia ter sido. Não há plateia para o arrependimento, mas há memória suficiente para torná-lo incômodo.
No fim, o que chamamos de medo do julgamento é, muitas vezes, apenas uma forma sofisticada de autoproteção. Um álibi bem construído para não sair do lugar. Um disfarce aceitável para a inércia. E talvez a provocação mais honesta seja essa: se ninguém liga, por que você ainda não começou?
Não porque dará certo. Não porque será bonito. Não porque haverá reconhecimento. Mas justamente porque, quando falhar, e há uma boa chance de falhar, o mundo seguirá exatamente como está agora: ocupado demais para fazer disso um espetáculo. E, pela primeira vez, isso pode não ser uma condenação. Pode ser liberdade.
Não tenha medo caro leitor e leitora, quem te ama e gosta de você, talvez o tenha como inspiração, mas os outros, independentemente do seu resultado, continuarão sendo quem são. E, sejamos sinceros, gostem eles de você, te conheçam ou não, no fim, não ligue para isso, pois ninguém se importa e você também não deveria.