GUILHERME BOMBA

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O preço de uma democracia sem limites

Da Redação

| Edição de 23 de julho de 2026 | Atualizado em 23 de julho de 2026

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Nesta semana, enquanto preparava uma aula sobre Participação e Teoria Democrática, de Carole Pateman — uma das obras exigidas no vestibular da UFPR deste ano — uma ideia não saiu da minha cabeça.

Costumamos dizer que a democracia acontece nas eleições. Pateman propõe exatamente o contrário: as eleições são apenas uma pequena parte da democracia.

Para ela, uma sociedade democrática é aquela que forma cidadãos capazes de participar, questionar, fiscalizar, discordar com responsabilidade e reconhecer quando estão sendo manipulados. A participação não é apenas consequência da democracia; ela é também aquilo que a constrói.

Talvez seja justamente por isso que os períodos eleitorais revelem tanto sobre quem nos tornamos.

De repente, problemas antigos recebem soluções instantâneas. Projetos impossíveis passam a parecer perfeitamente viáveis. Obras esquecidas renascem como grandes conquistas. Não raro, a percepção da população é a de que obras, anúncios e inaugurações se intensificam justamente quando o calendário eleitoral se aproxima. Ainda que muitas dessas ações sejam legítimas, a coincidência alimenta uma sensação perigosa: a de que a política trabalha mais para a próxima eleição do que para o próximo mandato.

Mais preocupante do que promessas que dificilmente serão cumpridas é o hábito que elas criam. Aos poucos, a mentira deixa de causar constrangimento. A propaganda passa a valer mais que o resultado. O espetáculo substitui a competência. E a política deixa de ser um espaço de construção coletiva para se tornar um concurso de narrativas.

Quando isso já não basta, surge um recurso ainda mais perigoso. Em vez de confrontar ideias, atacam-se pessoas.

Famílias passam a servir de munição. A vida privada torna-se instrumento de campanha. O adversário deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser tratado como alguém que precisa ser destruído.

É curioso perceber como isso contradiz a própria essência da democracia.

Discordar nunca foi o problema. Pelo contrário, sociedades livres dependem do conflito de ideias. O problema começa quando deixamos de discutir propostas e passamos a medir vitórias pela quantidade de reputações que conseguimos arruinar.

No fim, todos perdem.

Perde quem acredita na mentira. Perde quem a espalha. Perde quem aprende que vencer é mais importante do que convencer. E perde, principalmente, a democracia, porque cada eleição também ensina alguma coisa à sociedade. A pergunta é: o que estamos aprendendo?

Talvez a maior lição de Carole Pateman seja justamente esta: a democracia não é apenas uma forma de escolher governantes. Ela é uma forma de formar cidadãos.

Se as campanhas nos ensinam a aceitar promessas impossíveis, a normalizar o uso da máquina pública como ferramenta de promoção pessoal, a transformar adversários em inimigos e a esquecer que existe uma família por trás de cada sobrenome, talvez o problema não esteja apenas em quem disputa as eleições. Talvez esteja na democracia que estamos aprendendo a praticar.

Talvez seja exatamente por isso que Carole Pateman esteja entre as leituras da UFPR neste ano. Não para ensinar política, mas para ensinar democracia. Porque ela começa quando aprendemos a fazer perguntas, a desconfiar de respostas fáceis e a compreender que nenhum projeto de poder vale mais do que a verdade.

Se cada eleição também educa uma sociedade, vale perguntar: o que estamos aprendendo? Se a mentira vale mais do que a verdade, o espetáculo mais do que as propostas e o ataque pessoal mais do que o debate de ideias, talvez o problema não esteja apenas em quem disputa o poder. Talvez esteja na democracia que estamos construindo.