GUILHERME BOMBA

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O sonho filosófico de Everson – chocolate, caixão e um bom dia

Da Redação

| Edição de 28 de agosto de 2025 | Atualizado em 28 de agosto de 2025

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Everson, filósofo de vocação tardia, acordou certo dia perturbado por um sonho que não parecia caber nos limites da noite. Estava preso dentro do caixão de sua avó falecida. O lugar estreito, o cheiro da madeira velha, o peso da terra abafando a respiração: ali ele descobria o que chamava de inferno — não fogo, nem diabos, mas a eternidade de um sufoco sem fim. Angústia que não tem palavra, apenas sensação. O tempo arrastava-se sem relógio. O sonho durava milênios, mas cabia em segundos.

Quando despertou, ainda suado e com o coração tropeçando no peito, encontrou-se diante dela — a avó, morta, sentada à beira de sua cama. O fantasma tinha a serenidade dos que já não têm pressa.

— Você está morta! — gritou Everson, tentando expulsar o delírio. — Eu não sou doido! Sai daqui Sebastiana.

A velha sorriu com ironia doce:

— Quem não é doido nesse mundo, meu neto?

Everson estremeceu. O riso da avó carregava a sabedoria da morte e de uma vida inteira de muito trabalho dedicação e silêncio. Talvez só agora, depois da morte, ela tivesse o tempo necessário para expressar o que suas palavras em vida não eram capazes.

— Veja sua mãe — continuou ela, referindo-se à filha, internada em tratamento psiquiátrico. — Ela é a mais feliz de todos nós. Quando pedem para que escreva uma carta, ela declara amor a alguém e, em troca, ganha um chocolate do enfermeiro. Que filosofia é mais bela que essa? A doçura em troca do amor. Tudo que o queremos e precisamos às vezes é escrever uma carta ou comer um chocolate, ela tem os dois. E você meu filho, onde estão suas cartas e seus chocolates?

O filósofo silenciou. Como combater uma lógica assim? A mãe, entre paredes frias e diagnósticos, vivia uma verdade simples: amar e receber chocolate. Talvez estivesse, afinal, mais lúcida que todos. Depois de anos brigando com a TV que a vigiava, ela descobriu antes de todos como estamos sempre sendo observados e no fim, é só isso, ninguém de fato se importa, mas não para de observar.

Everson fechou os olhos. O sonho, o caixão, a avó espectral e a lembrança da mãe construíam um mosaico estranho, onde vida e morte dançavam de mãos dadas. Talvez fosse isso a existência: um corredor estreito entre a angústia do caixão e a leveza do chocolate. Uma vez Gabriel colocou algo na bebida de Everson, mas nem aquela viagem o fizera transcender como agora. Nenhuma ayahuasca e seus gnomos o fizeram viajar como agora. Não há metafisica maior do que a certeza do silêncio do caixão e o prazer do chocolate.

No fundo, filosofia e loucura não são rivais, mas irmãs. Ambas nascem do espanto diante do mundo, ambas perguntam onde está o sentido, ambas se alimentam do medo de não existir.

Everson então compreendeu: viver é aceitar a vertigem. É reconhecer que o inferno pode ser um sonho de sufoco e o paraíso, uma carta de amor com gosto de cacau. E que talvez a maior sabedoria esteja justamente em abraçar a nossa pequena e necessária loucura de cada dia. Everson era louco e sabia, aí estava sua lucidez.

— Dia, dia, dia. Caixão aberto, chocolate no bolso e muita Hannah Arendt. – Disse ele enquanto começava mais um dia do sonho acordado da loucura de ser feliz.