GUILHERME BOMBA

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Onde cabemos quando não cabemos?

Da Redação

| Edição de 20 de agosto de 2026 | Atualizado em 20 de agosto de 2026

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Há uma estranha facilidade em definir os outros.

Bastam alguns encontros, uma decisão desagradável, uma resposta atravessada, um silêncio no momento errado. Às vezes, nem isso. Alguém pronuncia uma palavra e, de repente, estamos resumidos. Difícil. Arrogante. Fraco. Exigente. Inseguro. Autoritário. Bonzinho demais. Sério demais. Intenso demais. Sempre demais.

Os rótulos têm essa vantagem sobre as pessoas: são simples. Pessoas não são.

Talvez por isso gostemos tanto deles. Um rótulo dispensa o esforço de compreender. Depois que alguém foi colocado dentro de uma palavra, já não precisamos mais perguntar por que age daquela maneira, o que carrega consigo, quais batalhas enfrenta ou quais dúvidas o acompanham quando fecha a porta de casa.

Já sabemos quem ele é. Ou pensamos saber.

O problema começa quando ouvimos tantas vezes aquilo que dizem sobre nós que passamos também a procurar aquela pessoa no espelho.

Será que sou mesmo?

E começa uma espécie de investigação íntima. Revisitamos conversas, decisões, erros. Calculamos gestos. Tentamos descobrir em qual momento nos transformamos naquela palavra que alguém escolheu para nos definir.

Talvez uma das experiências mais cruéis da vida adulta seja perceber que raramente conseguimos existir sem interpretação.

Somos sempre alguma coisa para alguém. Para uns, firmes. Para outros, insensíveis. Para uns, generosos. Para outros, ingênuos. Para uns, corajosos. Para outros, imprudentes. E talvez todos estejam olhando para a mesma pessoa. Há dias em que penso que passamos tempo demais tentando descobrir onde nos encaixamos.

Na profissão certa. No grupo certo. Na família certa. Entre os amigos certos. Procuramos aquele lugar quase mítico em que finalmente poderemos repousar e pensar: agora sim, pertenço.

Mas encaixar-se é uma palavra curiosa.

Peças se encaixam porque possuem formas previamente determinadas. Existe um espaço esperando por elas e, para caber ali, precisam ter exatamente aquelas medidas. Pessoas não deveriam funcionar assim.

Talvez algumas de nossas maiores angústias nasçam justamente da tentativa de diminuir uma parte aqui, esconder outra ali, arredondar uma ponta, silenciar alguma convicção, até finalmente cabermos no espaço que reservaram para nós.

E quando conseguimos, às vezes já não sabemos exatamente quem foi que coube. Porque existe também outra pergunta, talvez ainda mais difícil: quanto daquilo que hoje chamamos de personalidade nasceu realmente dentro de nós e quanto foi sendo construído pelas expectativas, críticas, elogios e reprovações que recebemos pelo caminho?

Em que momento descobrimos, enfim, quem somos? Talvez nunca.

Talvez não exista uma versão definitiva de nós mesmos escondida em algum lugar, esperando ser encontrada. Talvez sejamos uma construção permanente: aquilo que fomos, aquilo que fizeram conosco, aquilo que disseram sobre nós e, principalmente, aquilo que decidimos preservar apesar de tudo isso.

Por isso, talvez a pergunta não devesse ser “onde eu me encaixo?”. Talvez seja outra. Em quais lugares posso permanecer inteiro? Porque há lugares nos quais somos acolhidos exatamente como somos.

Há outros nos quais precisamos negociar um pouco conosco para permanecer. E existem aqueles em que, para caber, precisamos desaparecer. Talvez amadurecer seja aprender a distinguir uns dos outros. E talvez descobrir quem somos não seja encontrar finalmente uma definição. Talvez seja apenas reconhecer, entre tantas palavras que colocaram sobre nós, quais ainda conseguimos carregar quando estamos sozinhos.