Há algo de profundamente simbólico quando uma sala de aula silencia diante de uma pergunta simples: “Quem gosta de política?”. Não é o silêncio da ignorância, mas o da rejeição. Um afastamento quase instintivo, como quem evita um terreno que aprendeu a considerar tóxico antes mesmo de compreendê-lo. E talvez esteja aí o primeiro equívoco.
A política, em sua origem mais nobre, nasce na ágora da Grécia Antiga, não como disputa vazia, mas como exercício coletivo de convivência. Era o espaço onde a vida comum ganhava forma, onde o conflito era inevitável, mas também necessário, pois dele surgia a possibilidade de organização, justiça e pertencimento. Política, antes de tudo, é sobre viver junto. Sempre foi.
O problema é que, ao longo do tempo, fomos ensinados a reduzir esse conceito a um espetáculo menor. A política deixou de ser compreendida como estrutura e passou a ser percebida como palco. E, nesse palco, o que mais chama atenção não são ideias, mas personagens. Não são argumentos, mas gritos.
Hoje, fala-se muito de política. Fala-se com intensidade, com indignação, com paixão. Mas fala-se pouco com conhecimento. E essa combinação é perigosa. Porque quando a convicção ultrapassa a compreensão, o debate se transforma em disputa de torcida. A complexidade cede lugar ao simplismo. E o cidadão, que deveria ser protagonista, torna-se apenas eco.
Foi isso que apareceu, de forma quase poética, na fala de uma aluna: a sensação de que é preciso escolher um lado, como quem escolhe um time. Como se a realidade coubesse em duas cores. Como se pensar fosse, necessariamente, alinhar-se. Não é.
A política não é uma camisa. Não é identidade fixa, nem dogma. É processo. É reflexão. É dúvida, inclusive. A exigência de posicionamento imediato, sem tempo para compreensão, não fortalece a cidadania, apenas a empobrece. O que muitos rejeitam, portanto, não é a política em si. É a caricatura dela.
Rejeita-se o barulho, a agressividade, o personalismo vazio que transforma questões públicas em disputas privadas. Rejeita-se a sensação de que, para participar, é preciso gritar mais alto do que o outro, e não pensar melhor do que ele. Rejeita-se um ambiente onde a discordância não é debate, mas ofensa. E, ironicamente, ao rejeitar isso, afasta-se também daquilo que realmente importa.
Porque a política continua acontecendo. Nas decisões que organizam a escola, no transporte público que chega atrasado, no hospital que atende ou não atende, no currículo que forma ou deforma. A política não desaparece quando deixamos de gostar dela. Ela apenas segue, com ou sem nós. E talvez seja esse o ponto central: não precisamos gostar da política como quem gosta de um espetáculo. Mas precisamos compreendê-la como quem entende sua própria condição no mundo.
O desafio, portanto, não é convencer alguém a “amar” a política. É resgatá-la de onde ela foi sequestrada. Tirá-la do grito e devolvê-la ao argumento. Retirá-la do rótulo e reconduzi-la à reflexão. Porque, no fim das contas, odiar a política pode parecer um gesto de recusa. Mas, muitas vezes, é apenas o sintoma de que fomos apresentados a ela da pior maneira possível.
E talvez esteja na sala de aula, silenciosa e inquieta, a chance de recomeçar.