GUILHERME BOMBA

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Violência sem ruído: o abuso que aprendemos a tolerar

Da Redação

| Edição de 19 de março de 2026 | Atualizado em 19 de março de 2026

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Há formas de violência que não deixam marcas visíveis, mas reorganizam silenciosamente quem as sofre. Não fazem barulho suficiente para escandalizar, nem são intensas o bastante para provocar ruptura imediata. Instalam-se no cotidiano, repetem-se com naturalidade e, por isso mesmo, tornam-se difíceis de nomear. O abuso, nesses casos, deixa de ser exceção e passa a ser método.

Ele aparece no ambiente de trabalho, quando o gestor corrige em público aquilo que poderia orientar em privado. Não é orientação, é exposição. O erro vira ferramenta de hierarquia, e o constrangimento deixa de ser consequência para se tornar estratégia. Quem observa aprende menos sobre o erro e mais sobre o medo.

Nas relações pessoais, o mecanismo é mais sutil. O parceiro que monitora, questiona e exige explicações não se vê como controlador, mas como alguém que “cuida”. Aos poucos, a liberdade do outro vai sendo reduzida, sempre sob justificativas plausíveis. Quando se percebe, já não há escolha, apenas resposta. E quando ele se torna um ex e não quer ir embora? Te persegue, te acompanha, diz que mudou, mas continua fazendo as mesmas coisas? A desculpa do amor, assusta tanto quanto a violência que já foi uma ameaça. 

Entre amigos, o abuso costuma se esconder no humor. É a piada repetida, o alvo constante, o riso que insiste mesmo diante do incômodo. Quando confrontado, o agressor se protege: “você não sabe brincar”. A inversão é eficiente. Quem sofre parece exagerado, quem agride parece leve. Mas a repetição revela a intenção. Não é sobre rir com alguém, é sobre rir de alguém.

Esses comportamentos compartilham uma lógica comum: o desconforto do outro como ferramenta de afirmação. Não é descontrole, é escolha. Estudos indicam que o comportamento abusivo está mais ligado à busca por poder do que à incapacidade de se conter. O agressor sabe o que faz, e escolhe quando e com quem fazê-lo.

O mais inquietante é que isso não prospera sozinho. Existe um ambiente que permite. Pequenas violências são normalizadas em nome da eficiência, da sinceridade ou do humor. Antes de qualquer ruptura, houve silêncio. Antes do limite, houve tolerância.

Talvez o problema não esteja apenas em quem agride, mas na familiaridade que criamos com esse comportamento. Aprendemos a tolerar o chefe “difícil”, o parceiro “intenso”, o amigo “sem filtro”. Ajustamos expectativas, criamos justificativas e seguimos.

Mas há uma diferença entre conflito e violência. O conflito ainda reconhece igualdade. A violência, mesmo sutil, estabelece domínio. Quando alguém precisa diminuir o outro para se afirmar, não está em desacordo, está acima.

E talvez seja esse o ponto que mais incomoda. Porque reconhecer o abuso não exige apenas identificar quem o pratica, mas rever o quanto estamos dispostos a tolerar.

Até onde você está disposto a tolerar o intolerável por medo de perder o que já não vale a pena? Como disse a poetisa Marina Colasanti: “a gente se acostuma, mas não devia!”