ROGÉRIO RIBEIRO

min de leitura

A moral de ocasião

Diagramação02

| Edição de 03 de fevereiro de 2026 | Atualizado em 03 de fevereiro de 2026

Fique por dentro do que acontece em Apucarana, Arapongas e região, assine a Tribuna do Norte.

Há algo de profundamente inquietante na forma como muitos cidadãos consomem discursos políticos: com pressa, com seletividade afetiva e, sobretudo, com uma disposição quase voluntária para não enxergar contradições. É como se estivéssemos confortavelmente sentados diante das sombras projetadas na parede, discutindo com paixão a silhueta, enquanto recusamos olhar para a fogueira e para quem a alimenta. O problema nunca foi a ausência de luz. Sempre foi a recusa em encarar a fonte.

O discurso político moderno se sofisticou não pelo conteúdo, mas pela plasticidade. Ele muda de forma com a mesma facilidade com que muda o vento. O que ontem era virtude, hoje é crime. O que antes era escândalo, agora é instrumento necessário de governabilidade. E o mais curioso: os mesmos atores, com a mesma entonação grave e o mesmo ar de indignação moral, transitam entre essas posições como se o passado tivesse sido apagado por um simples corte de edição.

Há poucos anos, determinados agentes políticos que defendiam práticas com entusiasmo quase militante hoje apontam o dedo em riste para as mesmas práticas. Criticam métodos administrativos, políticas públicas e modelos de gestão com base em um discurso moralizante, supostamente técnico, supostamente racional. Antes, não apenas se calavam diante dessas mesmas práticas, mas as abraçavam e aplaudiam, desde que executadas por seus aliados. Não se trata de amadurecimento político. Trata-se de conveniência pura, desprovida de qualquer pudor intelectual.

Houve um tempo em que determinadas políticas públicas eram exaltadas como modelos de eficiência, racionalidade e boa governança. Mais tarde, pelas mesmas vozes que hoje se dizem paladinas da responsabilidade fiscal e da eficiência do gasto público, essas mesmas políticas passaram a ser atacadas como “neoliberais”, “tecnocráticas” ou até “desumanas”, conforme a conveniência política do momento. A política pública não mudou. Quem mudou foi o narrador.

É nesse ponto que a metáfora da caverna se encontra com a cova dos leões: ao abandonar o conforto das sombras e enfrentar dados, métodos e evidências, o analista sério sabe que será atacado. Questionar discursos incoerentes exige método científico, memória e coragem, pois expor incoerências quase sempre desagrada tribos ruidosas e líderes que prosperam na desatenção coletiva.

Caráter, aqui, não é palavra retórica. É critério analítico. Quem muda a avaliação de uma política pública apenas porque mudou o governo, o partido ou o beneficiário não está fazendo política. Está fazendo marketing ideológico. Se algo era bom ontem pelos seus efeitos objetivos, continuará bom hoje, ainda que embalado em nova retórica. Se algo funcionava no passado, não se torna ineficaz apenas porque o adversário o executou. O resto é teatro, encenação para plateias que preferem aplauso à reflexão.

Prestar atenção ao discurso político está longe de ser cinismo. É, antes de tudo, um exercício essencial de cidadania consciente. Significa escutar com atenção não apenas o que se diz, mas quem fala, de que maneira fala e, principalmente, o que dizia no passado. É confrontar palavras com práticas, promessas com dados concretos e indignações seletivas com trajetórias completas, sem concessões à conveniência do momento. A saída da caverna continua sendo possível, mas cobra seu preço: exige abrir mão de confortos intelectuais, enfrentar conflitos e aceitar que a verdade, quase sempre incômoda, dificilmente é tão sedutora quanto a mentira bem encenada. Enquanto muitos insistirem em não olhar com cuidado, o engano seguirá encontrando plateia.