Os dados mais recentes da economia brasileira pedem uma leitura cuidadosa das contas públicas. Relatório de receitas e despesas primárias do 4º bimestre de 2026 do Tesouro Nacional apontou a necessidade de contingenciamento expressivo de despesas do governo. Em relação ao bimestre anterior, a receita líquida projetada caiu significativamente, enquanto as despesas primárias subiram de forma ainda mais acentuada. É na combinação entre receitas mais fracas e gastos que não cedem que o orçamento aperta.
Houve, é verdade, uma boa notícia. A estimativa de despesas sujeitas ao teto recuou de forma considerável, sobretudo pela revisão de benefícios previdenciários e de pessoal, e o bloqueio orçamentário diminuiu. Mas seria um erro confundir alívio na execução orçamentária com solução do problema fiscal. Bloqueio e contingenciamento respondem a problemas diferentes, e a frustração de receitas, que está na origem do segundo, permanece.
A arrecadação do Imposto de Renda mostra bem essa dificuldade. A previsão de arrecadação foi reduzida de forma importante, porque o desempenho arrecadatório em julho e agosto veio abaixo do esperado e porque os rendimentos do capital renderam menos do que se calculava. Numa economia que desacelera, o recado é claro: arrecadação, renda e atividade econômica caminham juntas.
E a desaceleração já aparece nos indicadores. O crescimento da economia no segundo trimestre foi baixo, menos da metade do ritmo do primeiro, com enfraquecimento mais forte nos setores sensíveis ao ciclo econômico e queda no consumo das famílias. A política monetária restritiva chega ao crédito, ao investimento e ao consumo. A concessão de crédito livre às pessoas físicas recuou no trimestre encerrado em julho, enquanto endividamento, comprometimento da renda e inadimplência aumentam a pressão sobre o orçamento doméstico.
O mercado, por sua vez, projeta crescimento modesto nos próximos anos, abaixo de 2%. A inflação esperada voltou a subir, permanecendo acima das metas, e a taxa básica de juros deve terminar o período em patamares elevados. Ou seja, crescimento modesto, inflação resistente e juros altos, uma combinação que estreita a margem de manobra de qualquer governo.
Talvez o sinal mais preocupante esteja nas próprias expectativas fiscais. A dívida do setor público deve crescer significativamente nos próximos anos, com déficits primários previstos em todo o período. Quando se somam os juros, o resultado nominal pode se aproximar de um déficit preocupante. Dívida em alta com juros elevados significa gastar cada vez mais apenas para carregar o passado.
É aqui que surge uma pergunta que deveria interessar também a governadores e prefeitos. Se o Governo Federal enfrenta receitas em queda, juros altos e dívida crescente, o que acontecerá com Estados e municípios caso a atividade permaneça fraca? Menos crescimento significa menos ICMS, menos ISS e transferências constitucionais mais modestas, justamente quando saúde, educação, pessoal e custeio seguem rígidos. Para o próximo período, as projeções apontam crescimento contido, com política monetária ainda contracionista, e o risco climático se soma ao quadro: um El Niño intenso ameaça a produtividade agrícola, e o setor deve crescer de forma tímida.
Não se trata de anunciar uma crise, mas de reconhecer os sinais antes que se transformem em problemas. Planejamento, controle do gasto, eficiência na arrecadação e investimentos bem selecionados precisam estar no centro das decisões. Nas contas públicas, prevenir desequilíbrios continua sendo menos oneroso do que corrigi-los depois.