Estamos às portas do encerramento de 2025 e da abertura de 2026, e os números do Relatório de Mercado do Banco Central funcionam como um espelho incômodo da realidade econômica brasileira. Incômodo porque refletem aquilo que o discurso oficial insiste em negar: a economia anda de lado, a inflação permanece pressionada, a dívida pública cresce e o equilíbrio fiscal é sustentado mais por contabilidade criativa do que por fundamentos sólidos.
As projeções do mercado indicam inflação alta, mesmo após um ciclo prolongado de juros elevados. O IPCA esperado para 2025 e 2026 mostra desaceleração lenta e custosa. O remédio amargo tem nome e sobrenome: política monetária restritiva. Se hoje a inflação não está fora de controle, não é por virtude da política econômica do governo federal, mas porque o Banco Central tem cumprido seu papel institucional. O preço disso é conhecido: juros reais estratosféricos, investimento produtivo contido e crescimento econômico pífio.
O atual governo optou deliberadamente por uma política fiscal expansiva, sustentada não pela consolidação da produção nacional, mas pelo aumento contínuo das despesas. O crescimento prometido viria do gasto público, da ampliação de programas, da expansão do Estado. O problema é que gasto sem qualidade não gera desenvolvimento, gera inflação, endividamento e desorganização macroeconômica. As expectativas são claras ao mostrar um PIB crescendo pouco mais de 2%, insuficiente para sustentar a expansão das despesas e absolutamente incompatível com a trajetória crescente da dívida pública em relação ao PIB.
Para sustentar a narrativa de responsabilidade fiscal, o governo federal recorre a manobras que disfarçam déficits recorrentes. Os truques contábeis substituem reformas estruturais. Na prática, o setor público continua deficitário, ano após ano, empurrando a conta para frente. O resultado nominal segue profundamente negativo, enquanto o resultado primário permanece incapaz de interromper a escalada da dívida. Não se trata de opinião. Trata-se de aritmética elementar.
O cenário se torna ainda mais preocupante quando se observa o horizonte político. 2026 é ano eleitoral, e tudo indica que o atual presidente buscará um quarto mandato. Não há qualquer sinal de arrefecimento do ímpeto gastador. Pelo contrário: a lógica eleitoral costuma ampliar despesas, não contê-las. O custo dessa estratégia será pago mais uma vez pela sociedade, seja via inflação, seja via juros elevados, seja via deterioração dos serviços públicos. Nesse contexto, falar em reforma administrativa deixou de ser uma escolha ideológica e passou a ser uma necessidade objetiva. Não é possível melhorar a qualidade do gasto público sem enfrentar privilégios e ineficiências.
Como se não bastasse isso tudo, o governo federal insiste em “terceirizar” a execução de suas políticas públicas para os municípios, transferindo responsabilidades sem a correspondente transferência de capacidade técnica e institucional. A maioria dos municípios não possui estrutura para executar programas complexos, o que resulta em desperdício de recursos, baixa efetividade das políticas e frustração da população. Recursos públicos são finitos, escassos e custam caro para a sociedade. Tratá-los com leviandade não é apenas má gestão. É desrespeito ao contribuinte.
O Brasil precisa urgentemente de um choque de realismo. Controle da inflação, responsabilidade fiscal e qualidade do gasto não são pautas “neoliberais” ou “ortodoxas”. São pré-condições mínimas para qualquer projeto sério de desenvolvimento. Ignorar isso é insistir em erros já conhecidos.