ROGÉRIO RIBEIRO

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Números com método

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| Edição de 20 de janeiro de 2026 | Atualizado em 20 de janeiro de 2026

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Voltar à discussão sobre dados econômicos talvez pareça insistência. Para alguns, soa até como teimosia técnica. Mas insistir em método, fonte e transparência nunca foi excesso. Excesso é transformar estatística em retórica conveniente. Quando se fala de PIB e PIB per capita dos municípios da região, o primeiro compromisso deveria ser com a honestidade analítica. E honestidade, nesse caso, começa por dizer de onde vêm os números, como foram coletados e, sobretudo, como foram tratados.

Os dados aqui utilizados são públicos, oficiais e acessíveis: PIB municipal e PIB per capita divulgados pelo IBGE, com valores a preços correntes e deflacionados pelo IPCA para obtenção das variações reais. O método é simples e replicável, exatamente como deve ser. Não há truque, não há edição seletiva, não há “recorte estratégico” para causar impacto em discursos ou vídeos curtos. Há comparação temporal, correção inflacionária e leitura cuidadosa dos resultados.

Tomemos o crescimento real do PIB entre 2020 e 2023 para os 29 municípios da região analisada. Apucarana figura na 8ª posição, com variação real acumulada de 18,9%, um desempenho vigoroso e consistente. Arapongas, por sua vez, ocupa a 21ª posição, com crescimento real de 5,0%, ritmo mais moderado e sujeito a oscilações. Esses números dizem algo importante: Apucarana cresce mais rápido, Arapongas cresce menos. Nada além disso. Transformar esse dado em juízo absoluto de virtude ou fracasso é o primeiro erro de quem confunde análise com torcida.

Quando se passa ao PIB per capita real, o cenário se reorganiza. Apucarana sobe para a 5ª colocação, com crescimento real acumulado de 24,5%, enquanto Arapongas alcança a 11ª posição, com 10,0%. Aqui, novamente, as taxas contam uma história de ritmo: Apucarana acelera mais, Arapongas avança com mais cautela. Até aqui, nenhuma contradição, apenas dimensões distintas de leitura.

O contraste realmente espantoso surge quando se observa o nível nominal do PIB per capita. Em 2020, Arapongas ocupava a 8ª posição no ranking regional, enquanto Apucarana figurava apenas na 25ª. Não bastasse isso, naquele ano Apucarana apresentava PIB per capita abaixo tanto da média quanto da mediana da região. Em 2021, as posições e as condições se mantiveram.

Em 2022, ambos os municípios melhoraram suas posições: Arapongas avançou para a 7ª colocação e Apucarana para a 16ª. Ainda assim, Apucarana permaneceu abaixo da média e da mediana regionais. Já em 2023, Arapongas subiu para a 6ª posição, enquanto Apucarana recuou para a 18ª, mantendo-se, mais uma vez, abaixo dos valores médio e mediano da região. Os dados são claros, repetidos e persistentes, e justamente por isso desconfortáveis para narrativas simplistas.

O que esses números revelam é algo que nem sempre agrada: taxas de crescimento e níveis de renda são coisas diferentes. Apucarana apresenta um ritmo vigoroso de crescimento, mas parte de um patamar mais baixo. Arapongas cresce menos, porém sustenta níveis de PIB per capita superiores à média e à mediana regionais. Não há contradição nisso. Há trajetória histórica, estrutura produtiva e escolhas públicas e privadas acumuladas no tempo.

Ignorar essa distinção é brincar com números. Usar apenas o ritmo quando convém, ou apenas o nível quando interessa, não é análise econômica, é encenação. Dados não servem para confirmar discursos prontos. Servem para provocar reflexão, debate técnico e decisões responsáveis. Tanto o setor público quanto o setor privado são corresponsáveis pela trajetória do desenvolvimento local e precisam ser chamados a discutir evidências, não slogans.