ROGÉRIO RIBEIRO

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Números não brincam

Da Redação

| Edição de 13 de janeiro de 2026 | Atualizado em 13 de janeiro de 2026

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Há quem acredite que número é apenas um detalhe inconveniente entre uma fala de efeito e um vídeo bem editado. Outros, mais pacientes, sabem que os dados econômicos não falam sozinhos: eles precisam ser interrogados. E, como toda boa pergunta, a resposta depende do método. É curioso como essa constatação simples costuma incomodar. Afinal, há quem acuse os analistas de “brincarem com números”. Talvez porque, ao invés de jogá-los ao vento, estes insistam em organizá-los, ajustá-los e colocá-los em perspectiva.

Tomemos como exemplo o PIB municipal da região entre 2020 e 2023, segundo o IBGE. Observar apenas a variação nominal é tentador, pois percentuais elevados funcionam bem em discursos, mas esse artifício se desfaz quando os valores são corrigidos pelo IPCA. A análise real revela que muitos crescimentos vistosos perdem intensidade e alguns se transformam em queda. É o crescimento real acumulado que separa resultado econômico de ilusão estatística. Nesse contexto, Apucarana e Arapongas se destacam por serem os principais polos regionais: o primeiro acumulou crescimento real de 18,9%, com trajetória estável, enquanto o segundo avançou 5,1%, refletindo maior volatilidade. A comparação evidencia um ponto central: porte econômico não garante crescimento acelerado.

E aqui surge o primeiro erro comum: comparar taxas sem considerar a base. Municípios pequenos podem crescer muito em termos percentuais com acréscimos absolutos reduzidos. Isso não é defeito e nem faculdade, é matemática. Tratar esses percentuais como ranking de virtude administrativa é, no mínimo, desonestidade intelectual, ainda que renda curtidas.

Já o PIB per capita elimina o efeito do tamanho e permite comparações mais justas. Entre 2020 e 2023, alguns municípios apresentaram crescimento real acumulado expressivo, enquanto outros avançaram de forma mais moderada. Crescer rápido não é sinônimo de riqueza e crescer devagar não significa estagnação. O PIB per capita é uma fotografia do nível de renda e a taxa de crescimento, um filme do seu movimento. Confundir essas dimensões é como criticar um maratonista por não correr à velocidade de um velocista nos primeiros cem metros.

O problema começa quando números são usados como peças de entretenimento político. Seleciona-se um indicador, ignora-se o método, despreza-se a fonte e proclama-se uma verdade absoluta. Transparência e metodologia, ao contrário, exigem paciência: citar o IBGE, explicar preços correntes e valores reais e justificar escolhas analíticas não rendem aplausos imediatos, mas constrói credibilidade, algo menos viral, porém mais duradouro.

Analisar dados econômicos é um exercício de responsabilidade pública. Pode-se escolher o método, desde que ele seja explícito, replicável e honesto. O que não se pode é transformar estatística em espetáculo. Isso não é análise, é performance. E, convenhamos, brincar com números pode até divertir, mas não governa, não planeja e não melhora a vida de ninguém.

Números não brincam. Eles não mentem, não improvisam, não fazem espetáculo nem se moldam ao humor das redes sociais. Quem brinca são as pessoas que os recortam sem critério, ignoram a inflação quando convém, comparam realidades incomparáveis ou lançam percentuais ao vento sem método, fonte ou contexto. Os números são frios, impessoais e coerentes. Já a interpretação, nem sempre. Quando tratados com transparência e rigor metodológico, ajudam a compreender a realidade e a orientar decisões públicas. Quando usados como pirotecnia retórica, servem apenas para confundir. E isso, definitivamente, não é análise econômica.