ROGÉRIO RIBEIRO

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Os lados da moeda

Da Redação

| Edição de 10 de fevereiro de 2026 | Atualizado em 10 de fevereiro de 2026

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Já ouvi comentários curiosos feitos por trabalhadores assalariados, tanto do setor público quanto da iniciativa privada. Em tom de brincadeira, mas com um fundo de desejo sincero, dizem que gostariam de pagar muito mais imposto de renda. À primeira vista, soa contraditório, quase uma piada de mau gosto em um país que costuma associar tributo a punição. Mas basta avançar um pouco no raciocínio para perceber que a fala revela algo bem mais racional do que parece.

A lógica é simples: quanto mais imposto de renda alguém paga, maior é sua renda bruta. E, no final das contas, mesmo após o desconto do tributo, a renda líquida também cresce. Não se trata de gostar de pagar imposto, mas de reconhecer que o imposto é consequência de renda, e não sua negação. É uma percepção básica sobre agregados econômicos, frequentemente ignorada em debates passionais sobre carga tributária.

Curiosamente, o mesmo raciocínio raramente aparece quando alguns empresários reclamam dos tributos que incidem sobre suas atividades. A analogia, no entanto, é idêntica. Quanto maior o imposto pago, maior foi a receita bruta gerada. E, respeitadas as regras do jogo, maior tende a ser também a receita líquida. O problema não está no imposto em si, mas na incapacidade (ou recusa) de compreender estratégias empresariais, estrutura de custos, planejamento tributário lícito e, sobretudo, o papel do setor público na economia.

Trata-se de entender que o Estado não é uma abstração distante, mas uma engrenagem que cumpre funções essenciais: alocar recursos onde o mercado não alcança, redistribuir renda para reduzir desigualdades gritantes e estabilizar a economia em momentos de crise. Essas funções não surgem do nada. Precisam ser financiadas. E o financiamento se dá por meio dos tributos.

É curioso observar como quase todos demandam mais serviços públicos: saúde acessível, educação de qualidade, infraestrutura eficiente, segurança, políticas sociais. Mas poucos estão dispostos a encarar a consequência lógica dessa demanda. Para o setor público oferecer mais e melhores serviços, é preciso arrecadar recursos. Fingir que é possível expandir direitos sem discutir financiamento é vender ilusão.

Isso não significa, de forma alguma, dar um cheque em branco ao Estado. Pelo contrário. A cidadania fiscal plena exige um movimento duplo: contribuir pagando os impostos devidos e cobrar, com firmeza, transparência e eficiência a aplicação desses recursos. É legítimo e necessário exigir que o setor público faça mais com os mesmos recursos ou até com menos, combatendo desperdícios, ineficiências e prioridades distorcidas.

Nesse ponto, a crítica precisa ser direta: mordomias, penduricalhos e privilégios que drenam recursos públicos corroem a confiança da sociedade e precisam ser enfrentados. Não por populismo, mas por justiça fiscal. Quando o cidadão percebe que paga impostos enquanto alguns se beneficiam de exceções injustificáveis, o pacto social se enfraquece.

No limite, a cidadania fiscal exige coerência entre discurso e prática: não faz sentido defender um Estado mínimo e, ao mesmo tempo, exigir infraestrutura pública de excelência ou benefícios fiscais seletivos, enquanto a maioria dos assalariados contribui sem margem de escolha. Uma sociedade madura se sustenta quando todos contribuem conforme sua capacidade, cobram a aplicação eficiente e transparente dos recursos e reconhecem que políticas públicas são essenciais para amparar aqueles excluídos da renda e do consumo. Impostos, nesse sentido, não são um castigo, mas o instrumento civilizatório que permite o convívio social.