A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu ontem um alerta sobre o crescimento nas notificações de suspeitas de pancreatite relacionadas ao uso indevido das populares “canetas emagrecedoras”. Entre 2020 e 2025, foram registrados seis óbitos, incluindo no Paraná, e 145 casos, todos suspeitos, possivelmente ligados a esses medicamentos.
Na região, a preocupação gira em torno do grande número de pessoas que fazem uso de substâncias vindas do Paraguai, de procedência duvidosa. Anteontem, a Polícia Rodoviária Estadual (PRE) apreendeu 400 ampolas de tirzepatida transportadas irregularmente na PR-444, em Arapongas (ler box). Segundo especialista, medicamentos autorizados pela Anvisa são considerados seguros sob prescrição e acompanhamento médico.
O endocrinologista de Apucarana, José Cervantes, informa que os efeitos colaterais graves geralmente têm relação com o uso indiscriminado de fórmulas falsificadas. O médico relata que o único caso de pancreatite acompanhado por ele envolve uma paciente que utilizou, de forma indiscriminada, um medicamento comprado no Paraguai. O quadro de saúde dela evoluiu para pancreatite aguda.
“Essa paciente iniciou o tratamento na minha clínica utilizando o Mounjaro, medicamento autorizado pela Anvisa. De repente, ela começou a comprar do Paraguai e utilizar sem o meu conhecimento. Ela foi internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por 20 dias em estado grave. Agora está bem”, relata.
O médico ressalta a importância da prescrição e do acompanhamento médico. “A realidade é que o Mounjaro é seguro quando adquirido com prescrição médica em farmácia ou clínica autorizada. Na minha clínica tenho a liberação da Vigilância Sanitária e o produto é rastreado. A partir do momento que se compra de forma clandestina, perde-se todo o controle”, afirma.
Cervantes acredita que os casos relatados pela Anvisa tenham relação com o uso de medicamentos obtidos de forma irregular e orienta os pacientes a não se automedicarem, buscando sempre acompanhamento médico. Entre os riscos do uso indevido de produtos ilícitos está a má conservação, além da possibilidade real de adulteração nos produtos falsificados. “As pessoas precisam parar de se enganar. É um risco enorme. Se a pessoa utiliza um produto adulterado corre um grande risco de haver substâncias tóxicas”, alerta.
O especialista ressalta que medicamentos agonistas do receptor GLP-1 são voltados especificamente para pessoas obesas, com resistência insulínica e, principalmente, diabéticos. Ele observa que qualquer uso fora desses padrões é especulação sem critério técnico e ressalta que o maior perigo reside naqueles que buscam o tratamento com a intenção de usar a substância a qualquer custo, ignorando os protocolos de segurança.
“Acho que algumas pessoas utilizam isso como se fosse uma droga. Assim como existe abuso da testosterona, algumas pessoas abusam desses medicamentos também”, pontua.
ANVISA
Em nota, a Anvisa destacou que, embora o risco de pancreatite conste das bulas dos medicamentos aprovados no Brasil, as notificações têm aumentado tanto no cenário internacional como no cenário nacional, o que exige reforço das orientações de segurança.
“Conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras, esses medicamentos devem ser utilizados exclusivamente conforme as indicações aprovadas em bula e sob prescrição e acompanhamento de profissional habilitado”, destacou a agência no comunicado.
O monitoramento médico, segundo a Anvisa, é motivado pelo risco de eventos adversos graves, incluindo pancreatite aguda, que podem incluir formas necrotizantes e fatais.
“Apesar do alerta, não houve mudança na relação de risco e eficácia dessas substâncias. Ou seja, os benefícios terapêuticos ainda superam os efeitos adversos, de acordo com as indicações e modos de uso aprovados e constantes da bula”, completou a agência.