TIAGO CUNHA

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Nem toda escolha é uma oportunidade

Da Redação

| Edição de 24 de agosto de 2026 | Atualizado em 24 de agosto de 2026

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Chegamos ao quarto e último texto desta série inspirada na minha leitura de Previsivelmente Irracional, de Dan Ariely. Começamos questionando o óbvio, depois conversamos sobre como as referências influenciam nossas decisões e, na semana passada, refletimos sobre o poder do grátis. Para fechar esta sequência, escolhi um tema que encontro com frequência no ambiente empresarial: nossa dificuldade de renunciar a oportunidades. Ariely trata desse comportamento ao falar sobre nossa tendência de manter portas abertas. Gostamos de ter opções. Mesmo quando sabemos que provavelmente não vamos utilizá-las, existe um desconforto em simplesmente fechar uma porta. Parece que estamos perdendo alguma coisa. E, para evitar essa sensação, gastamos tempo e energia tentando preservar possibilidades.

Enquanto lia esse capítulo, lembrei de uma situação bastante comum. Uma empresa começa o ano com cinco projetos considerados prioritários. Alguns meses depois, surgem uma nova tecnologia, um evento, uma parceria e mais duas ideias interessantes. De repente, os cinco projetos viraram dez. Ninguém quer abandonar uma possibilidade porque todas parecem importantes. O problema é que os recursos continuam os mesmos. A equipe é a mesma. O orçamento continua limitado. E o dia ainda tem 24 horas. É nesse momento que uma palavra simples ganha importância no processo de inovação: escolha. Inovar também significa decidir o que não fazer.

Essa talvez seja uma das partes mais difíceis da gestão da inovação. Somos estimulados a gerar ideias, buscar oportunidades, conhecer tecnologias e criar projetos. Tudo isso é necessário. Mas uma organização não se torna mais inovadora simplesmente porque possui muitas iniciativas acontecendo ao mesmo tempo. Sem prioridade, a inovação vira uma coleção de boas intenções. Vejo isso também quando falamos de inteligência artificial. A cada semana surge uma nova ferramenta, uma nova possibilidade de automação ou uma solução que promete transformar determinado processo. É natural querer conhecer e experimentar. O risco está em tentar acompanhar tudo e não aprofundar nada.

Talvez seja melhor escolher um problema relevante, testar uma solução, medir o resultado e aprender com a experiência. Depois, avançamos para o próximo desafio. Nos ecossistemas de inovação acontece algo semelhante. Nem todo evento precisa ser criado. Nem todo projeto precisa continuar. Nem toda oportunidade precisa virar uma agenda. Às vezes, fortalecer aquilo que já funciona produz mais impacto do que iniciar uma nova iniciativa. Escolher exige coragem porque toda escolha também representa uma renúncia. Quando decidimos colocar energia em determinado projeto, estamos deixando outros para depois. E isso não significa falta de visão. Pode significar justamente o contrário: clareza sobre onde queremos chegar.

Ao terminar esta série, percebo que as provocações de Ariely convergem para uma questão importante para a inovação: precisamos compreender melhor como tomamos decisões. Questionar nossas certezas, observar nossas referências, entender os custos escondidos e saber fechar algumas portas pode melhorar muito a forma como inovamos. Talvez inovar não seja fazer mais. Em muitos momentos, inovar é escolher melhor. E fica a última provocação desta série: qual porta você precisa fechar para conseguir avançar naquela que realmente importa?