O Banco Central (BC) anunciou que começará a reduzir os juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para março. No entanto, a instituição não especificou a magnitude do corte, ressaltando que os juros permanecerão em níveis restritivos.
Essas informações constam na ata da reunião do Copom realizada na semana passada, divulgada nesta terça-feira (3). Na ocasião, o colegiado decidiu manter a taxa Selic, os juros básicos da economia, em 15% ao ano pela quinta vez consecutiva.
"Em um ambiente de inflação mais baixa e com a transmissão da política monetária [impacto da Selic na redução da inflação] mais evidente, a estratégia envolve a calibração do nível de juros. O Comitê prevê, caso o cenário esperado se confirme, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, mas reforça que manterá a restrição necessária para assegurar a convergência da inflação à meta", afirma a ata.
"O compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária", destacou o BC.
Estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta de inflação é de 3%, com um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Isso significa que o limite inferior é de 1,5% e o superior, de 4,5%. Para este ano, a previsão do mercado financeiro para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - referência oficial da inflação no país – está em 3,99%, ou seja, dentro da meta.
A taxa Selic está no maior nível desde julho de 2006, quando era de 15,25% ao ano. A Selic é o principal instrumento do BC para alcançar a meta de inflação. Quando o Copom aumenta a Selic, o objetivo é conter a demanda aquecida; isso reflete nos preços, pois os juros mais altos encarecem o crédito e incentivam a poupança. No entanto, taxas mais altas também podem dificultar a expansão econômica.
"O cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária. O Comitê avalia que a estratégia em curso tem se mostrado adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", diz a ata.
Resiliência
Segundo o BC, a manutenção dos juros em níveis restritivos se deve à resiliência de alguns fatores que pressionam os preços "tanto correntes quanto esperados", especialmente o dinamismo ainda observado no mercado de trabalho. Ainda assim, o BC observa que a atividade econômica doméstica manteve uma trajetória de moderação no crescimento, operando acima do seu potencial de expansão sem pressionar a inflação.
"No período mais recente, a taxa de desemprego tem se mantido em patamares historicamente baixos, enquanto os rendimentos reais médios têm mantido a tendência de elevação acima do crescimento da produtividade do trabalho. O Comitê segue atento ao debate sobre as dimensões corrente e estrutural do mercado de trabalho, enfatizando a necessidade dessa análise para a avaliação dos padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia", diz a ata.
"A moderação e a própria heterogeneidade das trajetórias de crescimento entre diferentes setores e mercados são compatíveis com a política monetária em curso. Mercados mais sensíveis às condições financeiras apresentam maior desaceleração, enquanto mercados mais sensíveis à renda apresentam maior resiliência", explicou o BC.
Para o mercado financeiro, de acordo com a última edição do boletim Focus, a Selic deve ser reduzida para 14,5% ao ano na próxima reunião do Copom, em março, e alcançar 12,25% ao ano até o final de 2026.
Cenários
Para o BC, o ambiente externo ainda se mantém incerto devido à conjuntura e à política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais. "Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em um ambiente marcado por tensão geopolítica", diz a ata.
Sobre o ambiente doméstico, a ata do Copom afirma que a saúde das contas públicas também é um fator determinante para o sucesso do controle da inflação. Segundo o BC, a política fiscal não apenas estimula a demanda no curto prazo, mas molda a confiança dos investidores na sustentabilidade da dívida brasileira.
O Copom enfatizou que uma política fiscal contracíclica — aquela que ajuda a equilibrar a economia em momentos de euforia ou retração — é essencial para reduzir o "prêmio de risco". Quando o mercado percebe incerteza sobre o pagamento da dívida pública, exige juros mais altos para emprestar dinheiro ao país.
"O Comitê reforçou a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade. O Comitê manteve a firme convicção de que as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas", diz a ata.
Com informações da Agência Brasil