Embora a taxa básica de juros do Brasil tenha atingido em 2025 o maior patamar em quase duas décadas, funcionando como um freio para a economia, o país registrou no ano passado a menor taxa de desemprego desde 2012, início da série histórica que monitora o mercado de trabalho brasileiro. Esses dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O principal fator para a queda do desemprego é o consumo das famílias, conforme explica Adriana Beringuy, coordenadora da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. "Mantemos uma economia essencialmente impulsionada pelo consumo das famílias", afirma.
Os dados da Pnad mostram que a taxa de desemprego no Brasil foi de 5,6% em 2025, comparada a 6,6% em 2024. A economia brasileira atingiu a marca de 103 milhões de trabalhadores ocupados e 6,2 milhões de pessoas em busca de trabalho, os chamados desocupados pelo IBGE.
A Pnad analisa o mercado de trabalho para pessoas com 14 anos ou mais, considerando todas as formas de ocupação, seja com ou sem carteira assinada, temporário ou por conta própria. Segundo os critérios do instituto, só é considerada desocupada a pessoa que efetivamente procurou uma vaga nos 30 dias anteriores à pesquisa.
Amortecimento dos juros
Em setembro de 2024, preocupado com a inflação crescente, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central iniciou uma escalada na taxa Selic, que estava em 10,5% ao ano, elevando-a para 15% em junho de 2025. A meta de inflação do governo é de 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
O índice oficial de inflação (IPCA) ficou fora do intervalo de tolerância por 13 meses consecutivos, praticamente durante todo o ano passado. A Selic, ao ser elevada, encarece operações de crédito e desestimula investimentos e consumo, impactando a economia de forma restritiva. Espera-se que isso reduza a procura por produtos e serviços, esfriando a inflação, mas também pode diminuir a geração de empregos.
Força do consumo
Adriana Beringuy, analista do IBGE, observa que, mesmo com a Selic em seu maior nível em quase 20 anos, o desemprego atingiu a mínima histórica da Pnad. Ela explica que "a transmissão do efeito da taxa de juros não é uniforme" e divide os gastos das famílias em setores sensíveis e não sensíveis ao juro alto.
"Não houve explosão de consumo de bens duráveis, como móveis. As atividades mais dependentes de crédito não foram as que mais cresceram em 2025", destaca. Por outro lado, o aumento do contingente ocupado, da renda do trabalhador e do salário mínimo gerou um efeito de "retroalimentação benéfica".
"Temos um grande número de pessoas ocupadas e, ao mesmo tempo, com rendimentos crescentes", justifica Beringuy.
Rendimento recorde
A Pnad também revelou que, em 2025, o rendimento médio mensal do trabalhador chegou ao recorde de R$ 3.560, uma expansão de 5,7% (ou R$ 192) em relação a 2024, já descontada a inflação do período. "Esse consumo foi canalizado para bens não duráveis, como alimentação e vestuário", sustenta a pesquisadora.
"Esse consumo se realizou não necessariamente por acesso a crédito, mas por crescimento da renda do trabalhador", acrescenta Beringuy, destacando o controle inflacionário e a valorização real do salário mínimo como fatores que beneficiam o consumo das famílias.
Atividades
A pesquisa do IBGE detalha a divisão dos 103 milhões de ocupados em 2025 por grupamento de atividades, destacando o comércio como o maior empregador.
- Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas: 19,5 milhões
- Administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais: 19 milhões
- Informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas: 13,4 milhões
- Indústria geral: 13,3 milhões
- Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura: 7,9 milhões
- Construção: 7,4 milhões
- Serviços domésticos: 5,7 milhões
- Transporte, armazenagem e correio: 5,9 milhões
- Outros serviços: 5,6 milhões
- Alojamento e alimentação: 5,4 milhões
Conta própria
Um destaque da pesquisa é o número de trabalhadores por conta própria, que chegou a 26,1 milhões, sendo 73% deles informais. O total de trabalhadores por conta própria aumentou 2,4% de um ano para o outro.
A coordenadora do IBGE ressalta que o aumento desses trabalhadores não significa uma redução dos trabalhadores com carteira assinada. "O crescimento do conta própria vem acompanhado também pelo vínculo formal", explica.
A Pnad mostra que o número de empregados com carteira assinada chegou a 38,9 milhões em 2025, o mais alto da série. "Talvez haja uma substituição, mas não sabemos a real intensidade disso, de uma migração do sem carteira para o conta própria", sugere. O número de empregados sem carteira assinada caiu 0,8% em 2025, totalizando 13,8 milhões de pessoas.
Com informações da Agência Brasil