Após quase uma década em recuperação judicial, a 7ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) decretou a falência do Grupo Oi nesta segunda-feira (10). A decisão, assinada pela juíza Simone Gastesi Chevrand, destacou a insolvência técnica e patrimonial da empresa de telecomunicações.
Conforme a juíza, a Oi acumula dívidas de cerca de R$ 1,7 bilhão, enquanto sua receita mensal gira em torno de R$ 200 milhões, com um patrimônio considerado "esvaziado". A magistrada afirmou que "a Oi é tecnicamente falida" e que não há mais viabilidade econômica para o cumprimento de suas obrigações.
A sentença converte o processo de recuperação judicial em falência, determinando a liquidação ordenada dos ativos da companhia para maximizar os valores destinados ao pagamento dos credores.
As atividades da Oi continuarão temporariamente até que outras empresas assumam os serviços, garantindo a continuidade da conectividade e a manutenção de serviços essenciais.
Processo de liquidação
A operação da empresa será conduzida pelo escritório Preserva-Ação, que já atuava como administrador judicial e interventor do grupo. Os escritórios Wald e K2, que também eram administradores, foram dispensados.
A falência inclui as controladas Portugal Telecom International Finance (PTIF) e Oi Brasil Holdings Coöperatief U.A. Todas as ações e execuções judiciais contra a companhia foram suspensas, e os credores deverão convocar uma assembleia para formar um comitê que acompanhará o processo de liquidação.
De acordo com o TJ-RJ, a decisão foi tomada após manifestação da própria empresa e do interventor judicial, que relataram a impossibilidade de pagamento das dívidas e o descumprimento de partes do plano de recuperação. A juíza destacou que "não há a mínima possibilidade de equacionamento entre o ativo e o passivo da empresa".
A Oi havia solicitado recentemente alterações em seu plano de recuperação e tentou abrir um processo semelhante nos Estados Unidos, sem sucesso. O pedido, no entanto, não foi apreciado pela Justiça brasileira.
Bloqueio de caixa
A juíza também determinou o bloqueio do caixa restrito da V.tal, empresa de infraestrutura de telecomunicações controlada pelo BTG Pactual e parceira da Oi. Segundo a decisão, os recursos destinados à V.tal comprometiam significativamente o fluxo de caixa da operadora.
O despacho ainda prevê a indisponibilidade de valores provenientes da venda de ativos, como a operação de fibra óptica e de telefonia móvel, até que o administrador judicial apresente um relatório detalhado sobre os bens.
Em sua decisão, a magistrada criticou a gestão da companhia ao longo dos anos e mencionou a "liquidação sistêmica promovida ao longo do processo recuperacional, que a esvaziou praticamente por completo".
A Justiça e o Ministério Público também apontaram omissão do governo federal na condução da crise da operadora, classificando-a como "histórica e continuada".
Histórico
A companhia entrou em recuperação judicial pela primeira vez em 2016, com R$ 65 bilhões em dívidas, em meio a uma grave crise de liquidez. O plano foi concluído em 2022, mas a empresa voltou a pedir proteção judicial no início de 2023, com passivo superior a R$ 44 bilhões.
“O processo começou na Europa, quando a empresa Telefônica [espanhola] comprou a parte da Portugal Telecom da Vivo, em 2010. Para que a Portugal Telecom não saísse do Brasil, o governo autorizou a entrada da companhia na Oi. O problema é que o Banco Espírito Santo [instituição financeira portuguesa], um dos principais controladores da Oi, quebrou em 2014, prejudicando uma das principais empresas de telecomunicações do Brasil”, explicou em 2023 o professor emérito da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) Murilo César Ramos.
A Oi, que já foi uma das maiores empresas de telecomunicações do país, chegou a concentrar parte significativa dos serviços públicos de telefonia e conectividade, incluindo contratos com órgãos de segurança, defesa e administração federal.
Hoje, é a única operadora presente em cerca de 7 mil localidades brasileiras, além de ser responsável pela operação de serviços de emergência como os números 190 (polícia), 192 (Samu) e 193 (bombeiros).
Nos últimos anos, a empresa vendeu seus principais ativos, incluindo a operação móvel, adquirida por Claro, TIM e Vivo, e sua rede de fibra óptica, repassada à V.tal. Segundo a decisão judicial, os resultados positivos da companhia não vieram da atividade operacional, mas da “alienação de ativos e contratação de empréstimos”.
Com a falência decretada, a Justiça busca assegurar a continuidade dos serviços e a preservação de parte do valor remanescente da companhia, encerrando o ciclo da antiga “supertele nacional”.
Com informações da Agência Brasil