Mais de 20 mil trabalhadores do comércio podem ser beneficiados pelo fim da jornada 6x1 em Apucarana e Arapongas. O projeto de lei, encaminhado pelo Governo Federal ao Congresso Nacional no mês passado, visa reduzir o limite da jornada de 44 para 40 horas semanais, garantindo dois dias de descanso remunerado sem redução salarial. A proposta ganhou destaque anteontem com o lançamento da campanha “Mais tempo para viver. Sem perder salário. Porque tempo não é um benefício. É um direito”.
A diretora e vice-presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Apucarana (Siecap), Edileia Crepaldi, declara total apoio à mudança na escala e destaca que a redução da jornada é uma pauta debatida pelo sindicato há pelo menos cinco anos, com o objetivo de garantir à categoria mais tempo de convívio familiar, descanso e, principalmente, cuidados com a saúde mental. No município, são mais de 9,5 mil trabalhadores atuam no comércio.
“Nós, enquanto sindicato laboral, queremos que isso aconteça e vire uma realidade. Temos nosso apoio para que o trabalhador tenha mais qualidade de vida”, ressalta Edileia.
Edileia lembra que outras conquistas da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) — como licença-maternidade, FGTS e um terço de férias — também enfrentaram diversos questionamentos, exigindo apenas readequações e análises de custo pelo empresariado. Para ela, a mudança trará ganhos diretos aos próprios empregadores. “Esse trabalhador vai ser mais produtivo, vai chegar mais animado para a empresa e isso acaba refletindo positivamente no trabalho”, avalia.
Já a presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Apucarana (Sivana), Aída Assunção, adotou uma postura de cautela. Segundo ela, o sindicato patronal ainda não abriu um debate formal sobre o tema, uma vez que o projeto ainda tramita na Câmara dos Deputados. “Não dá para fazer uma análise antecipada. Ainda é muito cedo. Se a proposta realmente for sancionada, vamos emitir nossa opinião baseada em dados”, disse.
IMPACTO
O economista e professor da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), campus Apucarana, Rogério Ribeiro, explica que, a princípio, o maior impacto da medida seria para os trabalhadores do comércio, que atuam com jornada superior a 40 horas semanais. Ele avalia que, enquanto estabelecimentos maiores têm capacidade gerencial para ajustar escalas, absorver os impactos e até ampliar o atendimento, o grande desafio recairá sobre os pequenos lojistas. “O maior problema fica com os pequenos comércios, aqueles que possuem um ou poucos funcionários. Isso irá impactar fortemente as atividades e gerar a demanda por contratações de mais funcionários. Com isso, aumenta o custo de operação e, consequentemente, a redução das margens de lucro”, explica o especialista, que é secretário da Fazenda em Apucarana.
Outros setores impactados serão os de hotelaria, restaurantes e lanchonetes.
“O setor industrial já tem dinâmica própria e praticamente atua na escala 5 por 2”, comenta.
Mudança de cultura e reposicionamento estratégico
Para o economista Rogério Ribeiro, ainda é cedo para medir os impactos reais da medida, sendo fundamental um debate “objetivo e sóbrio, sem paixões”. Ele projeta que, embora o aumento de custos e a redução de lucros sejam prováveis, dificilmente inviabilizarão os negócios. “O que pode ocorrer é afetar a lucratividade a ponto de o custo de oportunidade para aquele empresário ficar inviável perante outras alternativas”, explica. Para enfrentar esse cenário, Ribeiro defende que o empreendedor deverá avaliar todas as possibilidades e utilizar técnicas modernas de gestão para minimizar os impactos negativos. “Será uma mudança de cultura e um reposicionamento estratégico das empresas”, conclui.