Durante o dia, a especialidade de Jean Marie Jacques, de 41 anos, é o assentamento de pisos e revestimentos. À noite, seu foco muda para o balcão de uma loja de conveniência na Avenida Central do Paraná, em Apucarana, aberta para garantir uma renda extra. A jornada dupla deste sobrevivente do terremoto do Haiti ilustra a resiliência de um grupo de empreendedores estrangeiros que vêm ajudando a movimentar a economia apucaranense.
Atualmente, Apucarana soma 21,2 mil empresas ativas, segundo a Junta Comercial do Paraná (Jucepar). Dentro desse universo, ao menos 35 empresas são lideradas por imigrantes, conforme o Sebrae, com base em dados da Receita Federal. Embora o número de empresários estrangeiros pareça pequeno em relação ao universo total de negócios da cidade, a presença desses empreendedores ajuda a oxigenar o mercado local. Desse grupo, 92% são donos de micro e pequenas empresas.
Entre eles está Jacques, que decidiu se mudar de Camp-Perrin para o Brasil após ver seu país devastado pelo terremoto de magnitude 7,0 em 2010. “Depois do terremoto, ficou difícil trabalhar, porque eu sempre atuei com assentamento de piso, e os construtores saíram do país, foram para os Estados Unidos”, relembra.
Jean mudou-se primeiro para a República Dominicana, mas foi em uma conversa com um primo, que vive no Brasil há 16 anos, que decidiu mudar de rumo novamente. “Ele me incentivou a vir para o Brasil, pois disse que tinha bastante serviço na área da construção. Consegui os documentos e vim direto para Londrina. Comecei a fazer umas obras em Apucarana, gostei da cidade e escolhi ficar aqui”, conta.
Ao se estabelecer no município, ele criou a empresa Haïti Design Revestimento. Jean explica que, no Haiti, a palavra design é um título de respeito dado aos profissionais que executam seus ofícios com maestria. “Faz 21 anos que trabalho com assentamento de pisos. No Haiti, tudo o que você souber fazer bem feito, as pessoas te consideram um artista daquele ramo”, explica.
Para complementar o orçamento familiar, Jean decidiu abrir a conveniência. “O maior desafio para abrir meus negócios, sendo imigrante, é fazer freguês; demora um pouco”, relata o comerciante, que atualmente já conquistou uma clientela fiel.
Hoje, seu maior sonho é melhorar a qualidade de vida da família e, no futuro, ter condições de estender a mão aos seus compatriotas. “Com certeza, vou continuar nesse ramo. Meu maior objetivo é ser um forte empresário para poder ajudar os haitianos que vieram”, projeta.