OPINIÃO

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​ Campanha da fraternidade 2018 - Fraternidade e Violência

Por Padre Dr. Lino Batista de Oliveira, professor da PUCPR e Facnopar

| Edição de 06 de março de 2018 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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alar de um Deus que se encarnou na história do seu povo fica fácil quando esse Deus é o Deus da Bíblia, o Deus de Jesus Cristo. Desde o momento da criação, a história do Deus cristão é a mistura do divino com o mundo, sem que o divino se confunda com o mundo, pois seu misturar-se com a criação sempre teve a finalidade do resgate e da libertação. Assim começou tudo, com o Espírito de Deus pairando sobre as águas (Gn 1,2); com Deus propondo uma aliança (Gn 6,18); vindo em socorro do seu povo na escravidão (Ex 3,8); atuando por meio dos profetas (Jr 1,4-10) e, por fim, nascendo entre nós pelo seu Filho: Jesus (Lc 1,26-38). Paulo faz questão de nos dizer: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,6-8). Todo o movimento de Deus é de compaixão, de envolvimento, de proximidade e nunca de distanciamento. 

Sendo fiel a essa forma encarnada de Deus, os Apóstolos deram continuidade à missão da Igreja de viver a lógica do Reino, isto é, reino do agora e o ainda não. Tertuliano testemunha que os primeiros cristãos levavam essas palavras de Jesus tão a sério que os pagãos exclamavam, admirados: “Vede como eles se amam!” (Apolog. 39). Por isso, a necessidade de viver e ser Igreja não somente no amanhã, separado do presente, pois a missão tem seu ponto de partida na realidade, na vida concreta das pessoas. Quanto mais real a vivência do Evangelho nas realidades tristes da vida, mais é sentido o amor de Deus, que passa a ser visto não apenas como uma ideia, como uma filosofia e como algo longínquo. 
É para estar perto das pessoas, como Deus sempre fez, que a Igreja, corpo místico de Cristo, há 50 anos, mobiliza-se e mobiliza o povo para viver a Campanha da Fraternidade. Campanha que deseja nos fazer ver as situações de pecado que, como indivíduos e sociedade, enfrentamos. Via campanha, a Igreja mostra a presença de Deus nas situações de sofrimento e injustiças presentes em nossa realidade. Trata-se da Igreja sendo fiel, da Igreja se encarnando, misturando-se à vida das pessoas, assim como o Senhor o fez em tantas situações na história, pois se há uma coisa que Deus não cometeu, foi deixar seu povo órfão (Jo 14, 18). Uma ação de amor pelas pessoas e pela sociedade, é disso que se trata uma Campanha de Fraternidade. Se Deus amou o mundo, ao ponto de dar seu filho por ele, também nós devemos amá-lo e nos doarmos a ele, em especial àqueles que não possuem a oportunidade de uma vida melhor. Afinal, nosso destino escatológico é algo que pode ser previsível quando tomamos as palavras do Senhor: “(...) porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me. Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem sua esquerda: Apartai- vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes. Então também estes perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Ao que lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixaste de fazer a um destes mais pequeninos, deixastes de o fazer a mim” (Mt 25,35-45). Sendo assim, olhar as situações de fome, violência, injustiças, desigualdades e tantas outras, e não fazer nada como Igreja, é estar selando o próprio destino, destinando-se a não estar com Ele em seu Reino, não porque Ele não quis, mas sim porque nós assim quisemos. 
Neste ano, a Igreja se faz presente, através da Campanha da Fraternidade 2018 junto às milhares de pessoas que são vítimas da violência em nosso país. Trazendo o tema fraternidade e violência e o lema, somos todos irmãos, a Igreja se faz vizinha junto aos muitos que são violentados por estas bandas. Cumpre a Igreja o preceito: Fui violentado e fostes me visitar! Violência que se manifesta de tantas formas em nossa sociedade: cultural, psicológica, moral, física, sexual, econômica e política. Lembram-nos os bispos: não é atacando somente as consequências da violência que a resolveremos, pois é preciso ir até às raízes do pecado da violência, que no caso aqui, é um conjunto de fatores que passam pela educação, cultura e distribuição melhor de renda. Sem justiça social, a paz não passa de um objetivo inalcançável, de um discurso vazio, feito apenas para fazer de conta. Paz não se consegue sem uma conversão profunda.