OPINIÃO

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​ Dois pesos e “N” Medidas

Antonio Miguel

| Edição de 26 de agosto de 2017 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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A famosa frase “dois pesos e duas medidas” encontra-se na Bíblia e é uma referência ao antigo sistema de medidas e pesagens, quando ainda não existia um método definitivo que padronizasse os pesos. Assim, cada pesagem e medida era feita de forma desigual. 

E parece que, apesar de terem passado milênios desde que essa frase foi pronunciada, ainda a entendemos segundo nossas conveniências. O fato a que me refiro é a atrocidade cometida dias atrás contra dois animais (dois cachorros) que foram amarados junto à linha férrea e que quando o trem passou, dilacerou suas patas, sendo que um veio a óbito e o outro ficou gravemente ferido. 
Uma atitude dessas realmente nos leva a pensar o que o “ser humano” faz aqui em cima desta terra. Assisti impávido, através das redes sociais e dos jornais, verdadeiras bravatas contra tal atitude, especialmente alguns dos comentários postados sobre esse assunto que chegam a sugerir outra lei bíblica, a lei de talião, sou seja: “olho por olho, dente por dente”. 
O que valeria dizer que a sugestão é de se amarar o sujeito que teve a capacidade de atar os cãezinhos aos trilhos da mesma forma, para que sofresse a mesma pena. 
Nem de longe desejo que aconteça isso a ele, entretanto acredito que a instituição justiça deva dar cabo de uma punição exemplar para esse indivíduo. Inclusive, vi também, pelos mesmos meios de divulgação e redes sociais, nossos representantes tanto do executivo como do legislativo e seus staffs se manifestando de forma bem firme, condenando veementemente o acorrido, inclusive a foto que ilustrava a matéria trazia os nossos nobres edis de cabeça baixa fazendo um minuto de silêncio pela passagem desta para melhor da vítima, ou seja, do cachorro, e ainda, depois de inflamados pronunciamentos na tribuna da casa, entrarem com um requerimento ao Canil Municipal para que explique o que sendo feito para que isso nunca mais ocorra na nossa cidade. 
Mas nós também acompanhamos em dias passados outra tremenda atrocidade, dois “seres humanos” serem mortos, esquartejados e jogados dentro de um poço qualquer nos arrabaldes da cidade. Houve, sem duvida, uma grande repercussão na imprensa, com flashes ao vivo do local onde as parte dos corpos foram encontradas.  Também nas redes sociais a repercussão ocorreu, se bem que em proporção muito menos significativa do que no caso fatídico dos animaizinhos. 
A maioria dos mesmos leitores que comentaram depois a notícias dos cachorros e sugeriam uma pena capital, sugeriam anteriormente que, na realidade, os mortos nesta carnificina são merecedores de suas penas, pois lógico, são a escória da sociedade. Não refletindo serem vítimas de um sistema completamente perverso e que não tiveram alternativa de como escapar aos seus destinos trágicos. Mas sabe o que é mais nefasto quando comparamos esses dois casos? Acredito que seja o fato que a repercussão, nem de longe, foi proporcional. 
Não vi bravatas nos poderes públicos na tentativa de achar uma solução definitiva para esse problema, nem um minuto de silêncio pela passagem de duas almas que se perderam, por nossa culpa, nem um requerimento instando os poderes constituídos a se explicar o que fazem ou pretender fazer para que isso não ocorra nunca mais. Espero que de onde os dos cachorrinhos estejam possam interceder por nós “seres humanos” para que possamos ter “dois pesos e somente duas medidas”.