A cassação do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), na última segunda-feira à noite, encerra um ciclo político na Câmara Federal, mas está longe de representar uma mudança no sistema de corrupção instalado há décadas no Congresso Nacional, em Brasília.
Eduardo Cunha é acusado de receber propina de empresas e operar um grande esquema de repasses de “pixulecos” a dezenas de parlamentares em troca da aprovação de projetos de interesses obscuros. Chegou a ser alçado à condição de “herói nacional” com a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff (PT), mas foi relegado agora às sombras da política com a cassação, confirmada por um implacável 450 x 10.
Na prática, Cunha cumpriu sua missão ao garantir o impeachment de Dilma, mas acabou abandonado pelo PMDB e por outros partidos que sempre lhe deram sustentação. Afinal, tornou-se um estorvo a partir dos escândalos de corrupção, das ações no Supremo Tribunal Federal (STF) e da divulgação de gastos nababescos em Paris.
A figura de Eduardo Cunha é nefasta para a política nacional. Por décadas, esse político do Rio de Janeiro atuou como operador de esquemas, atuando nos bastidores do Congresso Nacional. Teria passado ao largo, como dezenas de outros espécimes dessa natureza em Brasília, caso não fosse pego pela vaidade. Gostou de ficar à frente dos holofotes e, por isso, acabou caindo.
Cunha manteve sob sua proteção uma dezena de deputados. Esses parlamentares mantiveram fidelidade canina até quando puderam, votando projetos de seu interesse e tentando obstruir o seu processo de cassação no plenário. Na reta final, como é praxe em Brasília, a maioria o abandonou. Não havia mais como sustentá-lo.
No entanto, seria ingenuidade pensar que a derrocada de Cunha representa um novo tempo na política. Rei morto, rei posto. Infelizmente, a tendência é outro político assumir o bastão. É a tradição obscura do Congresso Nacional, recheada de figuras históricas que vem desmoralizando a política em Brasília há décadas.
A mudança desse patamar degradante é complexa e passa por uma transformação no modelo vigente. Infelizmente, a política brasileira, culturalmente, é feita do toma-lá-da-cá, da troca de benefícios, do vale-tudo pelo poder. Cunha é fruto desse molde que, definitivamente, precisamos jogar fora.