OPINIÃO

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Se a honestidade causa surpresa, algo está errado

Da Redação

| Edição de 12 de agosto de 2016 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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Um gesto de honestidade de um apucaranense virou notícia estadual nesta semana. Um homem encontrou uma carteira com R$ 1,3 mil em um supermercado da cidade e entregou na gerência. O dinheiro era da aposentadoria de dona Divina Maria de Jesus Lemes, de 77 anos, que estava desesperada com a perda do salário necessário para o sustento do mês inteiro. A gerência do supermercado conseguiu localizar a idosa e devolveu a carteira.

Demonstrações de honestidade não deveriam chamar tanta atenção assim. No entanto, esses gestos são raros. Na maioria dos casos, infelizmente, o dinheiro perdido em situações como essa desaparece e somente a carteira ressurge... vazia.

Quando a honestidade de uma pessoa surpreende significa que há algo está muito errado na sociedade. No Brasil, especificamente, não é preciso muitas análises ou estudos. A corrupção é um problema nacional. Os desvios de recursos públicos por gestores são comuns na maioria dos estados. A Operação Lava Jato está aí para comprovar. Foram flagrados pelas investigações desvios de bilhões de reais de empresas públicas federais, especialmente na Petrobras nos últimos anos. Há uma sangria de dinheiro do cidadão há décadas e, infelizmente, a impunidade persiste.

No entanto, a corrupção no Brasil é cultural. Há inúmeros brasileiros revoltados com os desvios de recursos. As fraudes são inaceitáveis, de fato, porque tiram o dinheiro suado do cidadão para atender benefícios próprios. Muitos desses revoltados com a corrupção, porém, também mantêm uma conduta duvidosa no cotidiano. São pessoas que furam a fila, estacionam em local proibido, compram produtos piratas...

É a nefasta Lei de Gérson, de que o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo. Por isso, esses gestos de honestidade causam surpresa e viram matéria de jornal e de televisão. Essa repercussão, talvez, seja um grito de socorro, uma forma de dizer que “nem tudo está perdido”, que existem pessoas boas e que é possível mudar esse comportamento nacional.

A honestidade deveria fazer parte do caráter de todo cidadão. Infelizmente, é uma carência humana em tempos de desvalorização de valores e conceitos dúbios. No entanto, ao contrário do que advertiu Rui Barbosa, “de tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus”, não podemos, jamais, ter vergonha de sermos honestos. A sociedade depende disso.