O final do ano de 2015 marcou trinta anos da Nova República, nome que se convencionou adotar para o período da redemocratização do país a partir do fim do regime militar e a posse do primeiro presidente civil desde 1964, José Sarney, substituto constitucional do eleito Tancredo Neves. Esse período foi de altos baixos na vida brasileira, encerrado com um dos maiores acontecimentos em termos de investigação e punição de crimes de corrupção. A Operação Lava Jato, pode-se afirmar, fecha esse ciclo de três décadas e sinaliza para um país passado a limpo, ou seja, um novo Brasil.
Por decorrência direta e indireta desse evento, o país vive atualmente uma nova situação, com a presidente afastada e a Nação dirigida por seu sucessor legal, o vice-presidente Michel Temer.
A indagação corrente nestes últimos dias tem sido esta: o que esperar do governo interino? Evidentemente não pode haver uma resposta definitiva, apenas conjecturas, análises e até palpites. Naturalmente, o sucesso do governo dependerá do sucesso de medidas que precisam ser tomadas para reequilibrar o país. O êxito fica condicionado igualmente a diversos fatores, entre eles apoio político, parlamentar e popular. O momento requer diálogo, compreensão e união nacional.
A situação tornou-se insustentável no governo Dilma. A presidente perdeu as condições de governabilidade. Por inexperiência e inabilidade na negociação política acabou sem apoio do Congresso, que se aproveitou da fragilização do poder. A presidente contabilizou forte rejeição popular face a erros na condução econômica e ficou sem sustentação inclusive na sua própria base e partidos aliados. Isto, somado aos problemas de corrupção, foi o âmago da questão do impeachment, embora o processo haja se baseado no único fundamento jurídico legal, as chamadas pedaladas fiscais.
Quanto ao presidente interino, deve se considerar que Michel Temer é pessoa preparada, tanto pela formação quanto pela gestão pública e vivência política. Está na vida pública há 50 anos, foi Procurador Geral do Estado de São Paulo, três vezes secretário no governo paulista, seis mandatos de deputado federal, três vezes presidente da Câmara Federal, além da atuação no núcleo do poder como vice-presidente da República.
A ele são atribuídos dois predicados relevantes: hábil articulador político e facilidade de diálogo. Debita-se ao novo presidente carência de apoio popular, de carisma e estreito envolvimento com o povo como possuem outras lideranças. Ele mesmo reconheceu, em entrevista, que lhe falta “inserção popular”. Mas isso poderá vir a conquistar, dependendo dos rumos que o país tomar. É oportuno lembrar que dois vices anteriores que assumiram não eram da simpatia popular: José Sarney, que tinha rejeição e desconfiança do povo, e Itamar Franco. Ambos se saíram relativamente bem, embora em circunstâncias distintas.
O certo é que para corresponder às expectativas dos brasileiros, Michel Temer terá de adotar medidas fortes e impopulares, notadamente nas áreas econômica e social. E necessitará de resultados positivos em pouco tempo. Para isso, depende primordialmente do apoio do Congresso Nacional, que por sua vez deve demonstrar grandeza, espírito público e trabalhar pelo Brasil com seriedade, firmeza e espírito patriótico, compreendendo muito bem a gravidade da situação.