A galeria dos heróis olímpicos brasileiros tem mais uma integrante: a judoca Rafaela Silva. A carioca de 24 anos conquistou a medalha de ouro no judô na última segunda-feira à tarde e emocionou o país ao apresentar sua trajetória de superação e resiliência.
Rafaela nasceu na favela carioca de Cidade de Deus e cresceu em meio a um cenário de violência. A comunidade é uma das mais perigosas do Rio, dominada por traficantes e criminosos. Foi o esporte que a salvou da criminalidade e garantiu agora o seu reconhecimento.
Alcançar a medalha olímpica para esta carioca pode ser considerada uma façanha. Sem contar o abominável preconceito racial – foi chamada de macaca nas redes sociais após ser eliminada em Londres-2012-, ela precisou enfrentar todas as adversidades de estrutura e apoio financeiro para realizar o seu sonho olímpico.
Os jogos da Rio-2016 mostram mais uma vez o abismo que existe entre o Brasil e outros países, como os Estados Unidos e a China, apenas para citar dois exemplos. Estamos muito longe de sermos uma potência olímpica. Por aqui, o principal desafio ainda é combater a pobreza e as desigualdades sociais.
A importância do esporte e da educação, de modo geral, não é compreendida. Nos Estados Unidos, o ensino médio e a universidade investem na prática esportiva. Além de um celeiro de novos talentos, as instituições de ensino utilizam o esporte para formar cidadãos mais conscientes em relação ao corpo, à saúde e também aos aspectos de disciplina, coletividade e caráter.
No Brasil, ser um esportista de alto rendimento é um desafio praticamente intransponível para os mais pobres. Rafaela chegou lá a partir de um projeto social na comunidade onde cresceu. No entanto, o apoio recebido não foi suficiente. Essa brasileira negra, pobre, da Cidade Deus, chegou ao ouro porque acreditou, não se entregou e lutou com coragem atrás dos seus sonhos. É um ouro de uma típica brasileira, talvez a medalha mais merecida de todas já conquistadas.
Há, no entanto, muitas Rafaelas pelo país afora. São brasileiros de famílias de analfabetos que chegaram à faculdade, que viraram médicos, engenheiros, advogados; brasileiros que com a força do empreendedorismo se tornaram empresários, donos de negócios de sucesso...
A medalha de ouro da judoca Rafaela Silva mostra que há uma multidão de brasileiros esperando por oportunidades, por um lugar ao sol; brasileiros aguardando por políticas públicas voltadas à inclusão, que reduzam a desigualdade social, que garantam apenas uma chance de alcançar seus sonhos.