OPINIÃO

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Uma memória de amor à Apucarana

Por Rui Cavallin Pinto, ex-promotor de Justiça de Apucarana e membro da Academia de Letras do Paraná

| Edição de 30 de janeiro de 2020 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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Ainda conservo muitas lembranças pessoais e carinhosas do meu tempo de Apucarana. Eu era então muito jovem quando acompanhei meu pai na instalação do município, como secretário geral da administração local.

Dos amigos que fiz, porém, guardo particular afeição à memória de Francisco Soares Dias Sobrinho, nosso velho amigo Chiquinho “Gago”, nascido do nosso convívio durante a edição do “Imparcial”, um semanário que eu e o colega Humberto de Queiroz tirávamos juntos e Chiquinho editava na sua gráfica.
Revivo agora sua lembrança como todos os que cultivam a memória da cidade. A primeira delas, porque era homem de trato afável, aparentemente humilde, mantendo prosa mansa, própria de um bom convívio. Depois, passei a admirar sua disposição de trabalho e revelação de historiador. Era realmente um jornalista atento à presença do cotidiano da cidade mas, ainda foi mais que isso, foi o historiador a serviço da reconstrução do passado da cidade e da confiança no seu próspero destino. Daí a edição, em 2007, do seu “Norte do Paraná — Apucarana”, uma ampla coletânea de textos e ilustrações próprias da cidade em que refaz, através de um amplo e vivo painel de documentos e imagens, o que foi recolhendo por toda a vida, com devoção quase religiosa. E se atente, sobretudo, para seu sentimento pessoal do sagrado, sempre contido nas suas devoções, pois foi sempre homem de sincero sentimento religioso, não só pela prática dos deveres de mero devoto, mas pela leitura da própria doutrina cristã, seja em mãos de São Tomás de Aquino ou de outro autor patrístico, como revelou com a publicação do seu “Jubileu de Ouro da Diocese de Apucarana”, em que celebrou os cinquenta anos de sua criação.
Passava seus últimos anos alojado numa sala superior do edifício do Cine Fenix, no centro da cidade, onde, cercado de estantes com centenas de livros, velhos arquivos e milhares de papéis, se situava a sede da Fundação Cultural de Apucanana, da qual foi fundador e diretor. E ali se entregava diariamente a produzir seus artigos, atento a tudo que acontecia a seu redor e a tecer sua missão de reconstruir a história de Apucarana, seus albores e pioneiros.
Sempre me distinguiu com atenção e carinho de amigo. Constantemente me escrevia, contando da cidade e seus feitos. Assim, passei a ver nele, mais que o jornalista o verdadeiro historiador que, por seus méritos e minha indicação pessoal, resultou acolhido em cerimônia solene, membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, de cuja grei manifestava sempre orgulho de pertencer.
Porém, mais que tudo isso ainda, foi poeta, deixando um rico legado de versos, que divulgou em diversas publicações esparsas e fez inserir outras tantas nos textos dos seus livros. São versos simples, em quadra, celebrando os feitos da cidade e seus personagens, e, para minha maior surpresa fez incluir entre eles uma quadra em memória do meu pai, celebrado como bom amigo e competente secretário.
Repetindo: seu trabalho como historiador da cidade é quanto de melhor se podia esperar dele e do esforço de amor à cidade. É obra abrangente. Versou sobre tudo, compondo um amplo cenário, com a resenha de seus episódios mais significativos e o papel que desempenharam seus principais personagens. Constitui um rico manancial para quem se proponha a reproduzir e recontar a vida e a história da sociedade apucaranense e seu povo. Tem uma rica quantidade de documentos e fotos, construindo um amplo legado de sua origem, formação e desenvolvimento. 
Só soube que morreu tempos depois, quando, por circunstâncias estávamos distantes um do outro, lamentando, porém, não poder estar presente às homenagens que lhe foram prestadas, embora sei muito simples. Porém, Chiquinho deixa na memória da cidade um dos capítulos mais bonitos de sua história e sua gente, que é a herança maior de um historiador. Foi homem simples e humilde, tenho que nunca teve inimigos: só fez amigos e admiradores. E o que ainda mais fez (e muito bem...) foi multiplicar o pouco que recebeu para convertê-lo numa rica herança de amor humano e de exaltação da vida social, como forma superior de convivência e felicidade da humanidade. A ele minha homenagem, certo de que: minus tamen non minimus.