A mais forte razão pela qual as nossas indústrias entraram em dificuldades, com resultados expressando forte queda na produção e nas vendas , foi exatamente o real ter- se mantido valorizado, por longo período, para auxiliar no combate à inflação (expediente associado ao controle dos preços administrados de combustíveis, energia e transporte público), e dessa maneira, os produtos importados ficavam mais baratos e concorriam com os produzidos internamente. Esse foi o Cavalo de Troia a corroer as bases do nosso sistema produtivo.
Embora existam economistas que ainda não perceberam a lógica de combate à inflação, seja pelo exercício de uma indomesticável ignorância, seja pela disfarçada malandragem ideológica de colocar os fins políticos acima de qualquer discussão sobre a realidade nua e crua, a verdade é que a inflação se combate por vários expedientes associados, a saber: política monetária compatível (juros, oferta de dinheiro e crédito), contas fiscais equilibradas, salários reajustados na bitola da produtividade e câmbio flutuante, pois, neste último caso, quando a macroeconomia está ajustada, os fluxos de moeda forte (entrada e saída) encarregam-se pendularmente de fazer os ajeites no seu preço, sem sobrecarregar a base monetária. E não se deu atenção a esses dispositivos e incorremos na gastança para alavancar a reeleição e a continuidade dos interesses ideológicos em andamento.
É esclarecedor dizer que, por outro lado, o real desvalorizado, como hoje ocorre, favorece os interesses dos exportadores, cujos produtos ganham a competitividade perdida no período relatado , e, assim, a balança de contas correntes deixa a zona de desconforto e tende ao equilíbrio.
Com efeito, a mudança do eixo cambial, faz a indústria recuperar gradativamente os mercados externo e interno, em face do descalabro de uma política econômica persistente e fora dos prumos, apesar de a dose, nessa virada, ser cavalar, gerando efeitos colaterais, como veremos adiante.
Mas o dólar valorizado não semeia somente flores e cuida de jardins, também cultiva espinhos. Os nossos bens, por exemplo, imóveis, terras, fábricas, ações, etc. ficam com preços de pechincha aos olhos dos investidores internacionais, pois, diante da conversão cambial, eles podem comprar parte do Brasil a preço vil, irrisório, e, para quem cantarolava o discurso bufão e nacionalista, turbinado pela retórica demagógica contumaz, agora tem de passar pela humilhação de fatos inquestionáveis, carimbando os equívocos e a irresponsabilidade , a partir do strip tease da realidade... O populismo enxergava apenas o mel, sem compreender que as abelhas tinham que trabalhar pela reposição e que a sua capacidade em tal ofício era limitada, ainda mais porque quase nada estava restando para produzir os caixotes e melhorar as condições do apiário... Importamos o mel que faltava nessa conta e saturamos as contas externas...
Mas os dissabores não ficam restritos a esse círculo. Ainda temos mais amargura pela frente. Diante da nova realidade, perdemos o câmbio como arma de combate à inflação, o que gera a necessidade de o governo atacar o problema pelo lado fiscal com rigor, ou seja, reduzir os gastos de custeio, visivelmente enxertados por interesses ideológicos. Tarefa inglória, diante do assanho de Lula, de olho na próxima eleição.
Infelizmente, o que resta para a sociedade é o empenho do guru "liberal", o Ministro Joaquim Levy em aumentar impostos e recriar a CPMF, contribuindo para que os investimentos reduzam-se ainda mais. É tempo de a comunidade engajar-se em ações pela redução do custo Brasil, sem o que, apenas assistiremos, passivamente, a corrosão do Plano Real e a inundação da macroeconomia.