A advogada e co-autora do pedido de impeachment de Dilma Rousseff (PT), Janaína Paschoal, disse na manhã de ontem, em pronunciamento no Senado, ter “sofrido mais que ninguém” por ter solicitado o afastamento da presidente, pelo fato de ser a primeira mulher na Presidência da República.
“Ninguém pode ser perseguido por ser mulher. No entanto, ninguém pode ser protegido por ser mulher”, disse a advogada, no quinto dia de sessão do julgamento da presidente afastada Dilma Rousseff. “Este processo é do povo. Não só dos movimentos sociais que nos apoiaram, mas de cada um dos brasileiros que, individualmente, se manifestou neste período e deu força para que conseguíssemos chegar até aqui”, declara.
Em seu pronunciamento, Janaína diz que se coloca no processo do impeachment “como uma defensora do Brasil’. “Entrei nesta história sem ser chamada porque entendi que precisava fazer alguma coisa por nosso país.” Após o fim do processo, ela afirma querer voltar “ao anonimato, à tranquilidade”.
Janaína chamou ações do governo Dilma de “estelionato eleitoral” e afirmou que a falta de cortes de gastos em 2014 prejudicou o País e levou à crise econômica.
“Os cortes em 2014 foram de R$ 1,5 bilhão. Em 2015, foram de R$ 12 bilhões. As pessoas acreditaram que continuariam no Fies, no Ciências Sem Fronteiras. A fraude foi na fala e foi documental”.
Janaína finalizou sua fala pedindo desculpas a Dilma por afirmar saber “que a situação que ela vive não é fácil, porque eu lhe causei sofrimento”. “Peço que ela, um dia, entenda que eu fiz isso pensando também nos netos dela”, completou Janaína, emocionada.
A senadora e candidata à prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy (PMDB), bateu palmas para Janaína Paschoal, no plenário do Senado, quando ela disse que houve fraude por parte do governo Dilma Rousseff.
A ex-petista chegou a fazer sinal de “joia” com as duas mãos. A maior parte do plenário, que não acompanhava o discurso com atenção, não acompanhou as palmas.
Co-autor do processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, Miguel Reale Jr. também falou nesta terça no plenário do Senado.
O jurista criticou o discurso feito anteontem pela presidente afastada. “Ontem saí chocado do discurso da presidente Dilma. A impressão que tive é que a presidente está de costas à nação. Ela atribuiu este processo a uma trama urdida por Eduardo Cunha, sem se aperceber que este processo nasceu das ruas”, afirmou
“Neste momento, estamos prestes a mudar de mentalidade, não apenas de governo. É uma administração pública não baseada no mérito, mas na sinecura, na difusão de que o que importa é ser malandro. O lulopetismo deixa como legado a esperteza, a malandragem. O País não quer mais isso”, disse o jurista.
Placar dá como certo afastamento definitivo da presidente
O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Ricardo Lewandowski, afirmou ontem que a votação final do impeachment deveria ocorrer somente nesta quarta-feira. Isso porque ele pretendia separar a fase de ontem, quando ocorreram os discursos dos senadores, da última etapa do julgamento, que é a votação em si. Até o fechamento desta edição, esta decisão de Lewandowski ainda não havia sido oficializada.
O adiamento afeta os planos do presidente interino, Michel Temer, que pretende ir nesta semana à China para participar do encontro do G-20. Caso seja efetivado no cargo, esta será a primeira viagem internacional dele como presidente da República.
De acordo com levantamento da Folha de S. Paulo, até ontem no final da tarde 54 senadores haviam declarado publicamente serem favoráveis ao impeachment, número mínimo necessário.
Senadores de oposição, no entanto, calculavam que até a votação, que é nominal, número alcançaria 61 ou 62. (FOLHAPRESS)