A indefinição política quanto ao impeachment ou não da presidente da República, Dilma Rousseff (PT), e o afastamento ou não do presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), devem continuar travando o Brasil nos primeiros meses de 2016. É o que preveem os analistas Elve Cenci e Ronaldo Baltar, o primeiro professor de ética e filosofia política e, o segundo, professor de sociologia, ambos da Universidade Estadual de Londrina (UEL), ouvidos pela Tribuna.
Para ambos, a disputa política que se trava em Brasília entre Dilma e Cunha, entre governo e oposição provoca incertezas no mercado investidor e influencia diretamente para o agravamento da crise econômica do País.
Para o professor Ronaldo Baltar, o cenário político no País estará bastante indefinido provavelmente até março. Na sua avaliação, o recesso do Congresso e do Poder Judiciário terá um efeito de esfriar os embates políticos, voltando o foco das atenções, nos primeiros meses do ano, para as ações do ministro da Fazenda recém-empossado, Nelson Barbosa. Devem chamar a atenção as expectativas e as medidas do novo ministro para conter a crise econômica.
Segundo o professor Baltar, este começo de ano deverá ser um período de intensa articulação política de bastidores e pouco enfrentamento, devido ao recesso.
Na sua avaliação, os embargos do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), sobre o rito do impeachment, terão o efeito de deslocar o foco das atenções para a disputa entre Legislativo e Judiciário, deixando a Presidência da República, ao menos até março, com menos pressão direta.
“As medidas econômicas e o desenrolar do impasse entre judiciário e o Legislativo servirão de alívio para a presidente Dilma e seus ministros de articulação política, sobretudo, Jaques Wagner, para que possam buscar construir as bases de sustentação dos votos necessários para barrar o impeachment”, analisa.
Baltar acrescenta que, em março, as mobilizações de rua e os debates no Congresso vão voltar a colocar pressão sobre a presidente Dilma. A capacidade da presidente em reagir ao impeachment deverá ser construída nos primeiros meses de 2016.
O professor Elve Cenci diz que vislumbra pelo menos três perspectivas para o cenário político neste começo de ano. A primeira, momentaneamente mais distante, contemplaria o impeachment e um novo acordo político entre PMDB, PSDB, DEM, PP, PTB e demais partidos com representação no Congresso.
Na segunda, o impeachment não acontece e governo e oposição continuam até 2018 com a guerra que hoje paralisa o País. Uma terceira possibilidade, diz, seriam a derrota do impeachment e a reorganização política do governo com a consequente reconfiguração da base aliada.
Ambiente de disputa agrava crise econômica
Tanto Elve Cenci como Ronaldo Baltar veem a crise econômica como motivada também pela disputa política. “Sem base parlamentar, o governo não consegue aprovar projetos importantes”, afirma o professor Elve. Ele observa que o governo federal (Beto Richa fez o mesmo) protelou mudanças importantes para depois da eleição. Após a eleição, o ambiente de disputa continuou e paralisou as casas legislativas. E no presidencialismo de coalizão o governo necessita contar com o apoio de um grupo expressivo de parlamentares. “Sem esse apoio, como está acontecendo agora, o (a) presidente não consegue governar”, declara.
Para o professor Ronaldo Baltar, a crise econômica é influenciada pela crise política de várias maneiras. Ele cita três formas. Primeiro: o desequilíbrio no gasto público e o endividamento crescente têm um efeito real sobre a economia, criando o cenário de desaceleração, com inflação e desemprego. O segundo problema é que o setor privado, na incerteza do cenário político, não faz investimentos, agravando a situação.
O terceiro problema é que a crise política, com a divisão do Congresso, a fragmentação da base de apoio político, deixa a Presidência sem poder de tomar medidas necessárias para solucionar o cenário econômico.
Desta forma não adiantam medidas conjunturais e pouco menos as medidas estruturais, como a reforma da Previdência anunciada por Nelson Barbosa logo após sua posse como ministro da Fazenda. “Sem capacidade política, a expectativa é que a crise se agrave até que as condições políticas possam voltar a uma situação de governabilidade”, acentua professor Baltar. (E.C.)
População está perdida no meio do fogo cruzado
O embate político entre Dilma e Cunha, entre governo e oposição é assistido de perto e de longe pela população, a mais prejudicada neste contexto.
Para o professor Elve Cenci, a população está perdida no meio deste fogo cruzado. Ele avalia que existem grupos que culpam o governo pelo momento ruim da economia. Se a economia melhorar, volta o apoio. Outros, eleitores do PSDB e inconformados com a vitória de Dilma, querem que o PT saia, mesmo que para isso seja necessário esconder os feitos do Cunha e parar o País.
No lado oposto, observa, estão os eleitores da Dilma. “São indivíduos que defendem a legitimidade do seu mandato, mas rejeitam a política econômica do governo. Enxergavam em Levy as bandeiras do PSDB”, afirma.
Para Cenci, Cunha tornou-se o indesejado do momento. Para a oposição, ele era necessário para provocar o máximo de estrago no governo e garantir o acolhimento do pedido de impeachment. Hoje, após o início da tramitação do processo, tornou-se um peso.
“As razões que o motivaram a acolher o pedido de impeachment contaminaram a aceitação pública da causa. Por isso, precisa ser descartado o quanto antes. Para o PT, Cunha é oposição e prejudica os interesses do governo”.
Quanto ao fato de grande parcela da população pedir a saída do PT do governo, professor Cenci vê isso como natural nas circunstâncias atuais, tendo em vista o partido ser governo. Ele lembra que o PSDB também era combatido na era Fernando Henrique Cardoso. (E.C.)
Brasileiro está descrente com governo, Congresso e partidos
De acordo com o professor Ronaldo Baltar, apesar de haver um crescimento dos embates entre grupos diferentes, com mobilizações de rua e manifestações em redes sociais, a grande maioria das pessoas tem demonstrado insatisfação crescente com a política de modo geral. “Há um descrédito com o Congresso, com o Executivo e com os partidos políticos”, observa.
Para Baltar, esse descrédito se apresenta nas sondagens de opinião, que mostram a baixa popularidade da presidente Dilma, mas também de quase todas as lideranças políticas. “A oposição não tem sido capaz de se mostrar como alternativa política aos olhos da opinião pública”, avalia.
Conforme o sociólogo, de maneira geral e para a população em geral, o que aparece nas pesquisas é que não há uma divisão entre “situação” e “oposição”. Neste aspecto, tanto a “situação” quando a “oposição” sofrem do mesmo descrédito, são vistos como “políticos” e, como tal, beneficiadores e beneficiados de um sistema corrompido. “Nem mesmo a candidata Marina Silva, com seu partido Rede e a ideia da ‘nova política’, conseguiu se destacar como alternativa”, cita.
Conforme Baltar, o fato de muitos brasileiros defenderem a saída do PT do governo é por causa de o partido ter perdido sua legitimidade de portador da bandeira “ética na política”, como se apresentou desde sua fundação na década de 1980. Isto em função dos escândalos do mensalão e da Petrobras, agora acrescidos dos que se sentiram ludibriados pela crença nas promessas de 2002. (E.C.)