Dois discos de rock brasileiro, lançados com poucos meses de diferença, formularam o diagnóstico mais duro do país que saía da ditadura. Em 1987, os Titãs lançaram o disco chamado “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” e a música “Comida” reduziu a bebida a água e a comida a pasto, e devolveu ao ouvinte duas perguntas: de que você tem fome? De que você tem sede? No mesmo ano, a Legião Urbana gravou “Que País É Este” no disco com o mesmo nome.
O pano de fundo era o governo Sarney. O Plano Cruzado congelou preços em fevereiro de 1986, produziu euforia de consumo, garantiu ao PMDB uma vitória esmagadora em novembro e desmoronou logo depois. Vieram o Cruzado II, o Bresser, o Verão, a moratória e a inflação de volta aos três dígitos. Ao lado disso, a Constituinte escrevia o pacto mais generoso da nossa história em matéria de direitos. O país fazia, ao mesmo tempo, a sua maior promessa institucional e a sua mais completa demonstração de incompetência macroeconômica.
“Comida” é, lida por um economista, uma crítica antecipada ao PIB como medida de vida boa. A canção não nega a necessidade material. Ela recusa que a necessidade esgote o humano. É Aristóteles na Política: a cidade nasce por causa do viver, mas existe em vista do bem viver. É Marx nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, onde o trabalhador reduzido às funções animais deixa de ser homem justamente naquilo que o define. É Amartya Sen, décadas depois, trocando renda por capacidades. Quem oferece apenas pasto não está combatendo a miséria. Está administrando a docilidade.
“Que País É Este” faz o trabalho complementar. Enumera a corrupção nas três esferas de governo e não conclui nada, porque a pergunta é a conclusão. Sérgio Buarque de Holanda já havia explicado a confusão entre o público e o privado. Raymundo Faoro já havia mostrado, em “Os Donos do Poder”, que o estamento burocrático brasileiro se serve do Estado em vez de servi-lo. A canção apenas musicou o que a ciência política já sabia e o eleitor preferia ignorar.
Quase quarenta anos depois, às vésperas de mais uma eleição, as duas perguntas voltam com uma indignidade nova. O vocabulário público brasileiro hoje chama de “gado” o eleitor da situação e chama de “gado” o eleitor da oposição. A metáfora foi inventada como insulto, mas funciona como confissão. Gado é o animal que aceita o pasto, que não pergunta de que tem fome, que confunde curral com pátria. E o mais revelador é que os dois rebanhos usam a palavra contra o outro sem jamais aplicá-la a si mesmos.
O mecanismo é simétrico, e é por isso que ele é grave. De um lado e do outro, o julgamento é terceirizado ao time. A informação vira senha de pertencimento. O erro do próprio grupo é contexto. O erro do adversário é essência. Kant chamaria isso de menoridade autoimposta: não falta entendimento, falta coragem de usá-lo sem tutor. E nunca faltam candidatos ao posto de tutor.
Enquanto isso, a economia repete o roteiro dos anos 1980 com produção melhor. Seguimos anunciando ajustes sempre para depois da eleição, tratando transferência de renda como moeda de campanha e chamando de política pública aquilo que é apenas calendário eleitoral. Mudaram os instrumentos e a sofisticação técnica. Não mudou a lógica.
A pergunta dos Titãs não era retórica e a da Legião não era desabafo. Ambas exigem resposta em primeira pessoa. De que este país tem fome, e de que cada um de nós tem fome, é a única coisa que nenhum líder, de nenhum lado, pode responder em nosso lugar. Continuar esperando essa resposta do curral é ter escolhido o pasto.