ROGÉRIO RIBEIRO

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O mercado

Da Redação

| Edição de 22 de novembro de 2022 | Atualizado em 22 de novembro de 2022

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Recentemente o presidente eleito questionou a manutenção do teto de gastos e afirmou que não vê como necessária a existência de uma âncora fiscal. Primeiramente temos que entender o que é essa tal âncora fiscal e o seu significado é muito simples. Trata-se de uma estratégia para manter as despesas dentro das receitas. Quando um indivíduo está endividado é recomendado que ele faça uma adequação de suas despesas para poder amortizar a dívida. Com os países a situação não é diferente: países endividados precisam reduzir o crescimento da dívida.

Como para as pessoas comuns, quando há indícios de que o devedor não conseguirá pagar sequer os juros os credores diminuem o interesse de efetuar novos empréstimos, o que ocorre somente se aumentar o chamado “prêmio de risco”, que nada mais é do que um rendimento suplementar exigido pelo agente que irá efetuar o empréstimo.

Por isto é necessária a existência da âncora fiscal, para garantir uma certa previsibilidade na trajetória da dívida, o que evita o seu crescimento. Quando as contas públicas persistem em déficits sucessivos aumenta a dívida e aumenta o risco-país. Como alternativa para a chamada “rolagem da dívida” é necessário que este país se submeta a pagar juros maiores. Este movimento simples de refinanciamento da dívida gera um aumento nos juros da economia, o que faz com que a produção interna bruta diminua.

A crítica do presidente eleito sobre a manutenção da responsabilidade fiscal em detrimento de recursos para a área social deve ser modulada. Os gastos sociais são necessários, principalmente num momento de crise como o que vivenciamos. Por conta disto os gastos sociais devem ser mantidos. Mas também não podemos deixar de lado a necessidade do equilíbrio nas contas públicas.

Ao afirmar não ter necessidade da âncora fiscal o presidente eleito está emitindo sinais de que não pretende sequer pagar os juros sobre a dívida do país e isto é muito ruim para a economia. Logo após as falas dele ocorreram eventos no mercado financeiro que fizeram a cotação do dólar subir.

Daí ele emenda outra crítica, dizendo: “nunca vi um mercado tão sensível”. Mas afinal de contas o quê ou quem é o mercado? Para que serve? Do jeito que Lula falou e os seus seguidores começam a repetir dá a impressão que este tal de mercado é algo ruim, que não quer o bem do país. Pois bem, nas aulas de introdução à economia é ensinado que o mercado nada mais é do que o local onde as forças de oferta e procura de algum bem ou serviço se encontram. Assim, temos o mercado de vassouras, o mercado de trabalho, o mercado de alimentos e o mercado financeiro, dentre tantos outros.

O mercado a que Lula se referiu é o mercado financeiro, que é o local onde a oferta de crédito se encontra com a demanda por crédito. Não é algo que está distante dos brasileiros comuns, pois todos nós ou ofertamos ou demandamos crédito. Ao efetuar um depósito das economias do mês numa caderneta de poupança ou mesmo numa renda fixa no banco estamos oferecendo crédito. Ao comprar qualquer produto num estabelecimento comercial e pagar com o cartão de crédito estamos demandando crédito.

O mercado financeiro é que garante, através da negociação de seus produtos financeiros, o dinheiro necessário para transacionar tudo o que é produzido numa economia. Ele é importante para a economia e não pode ser taxado como algo ruim. Nosso país precisa do mercado financeiro e também precisa dos gastos sociais e de responsabilidade fiscal. Talvez a alternativa seja reduzir alguns gastos públicos que sejam desnecessários.