Uma notícia impressionante aparece nas redes sociais ou em aplicativos de mensagens. Tão extraordinária que gera desconfiança: será mesmo real? Uma busca rápida na internet revela matérias com o selo de verdadeiro ou falso. Esse processo tornou-se comum para muitos nos últimos dez anos, desde o surgimento das primeiras agências de checagem no Brasil.
O site Aos Fatos foi o pioneiro, lançado em julho de 2015. Em novembro do mesmo ano, a Agência Lupa (imagem de destaque) também entrou em cena. Uol Confere (2017) e Estadão Verifica (2018) vieram depois. As quatro são membros da Aliança Internacional de Checagem de Fatos (IFCN).
Em entrevista à Agência Brasil, as diretoras executivas de Aos Fatos, Tai Nalon, e da Agência Lupa, Natália Leal, afirmam que o trabalho de checagem ajudou a transformar aspectos importantes do jornalismo e da política brasileira.
"Sobretudo na década de 2010, políticos e pessoas influentes no processo de formação de opinião pública passaram a não depender mais de grandes veículos de comunicação para divulgar suas versões dos fatos. As redes sociais passaram a distribuir conteúdos de forma mais eficiente. Sem um processo de apuração jornalística, a desinformação tornou-se mais prevalente nessas plataformas", reflete Tai Nalon.
"A checagem de fatos surge para verificar o discurso de políticos que se aproveitavam dessa desmediação para falar com o eleitorado. A checagem veio para desbancar determinadas afirmações, alegações que poderiam ser falsas, enganosas, tiradas de contexto", complementa a diretora executiva de Aos Fatos.
"O trabalho das agências ajudou a mudar a maneira como os políticos se relacionam com suas próprias declarações. Não foi raro nas últimas eleições ouvir políticos dizendo que iriam conferir um dado antes de falar, porque a Lupa iria dizer que era falso depois", diz Natália Leal.
"Outro impacto foi no próprio fazer jornalístico geral, principalmente a partir da pandemia. Tínhamos um jornalismo muito declaratório, em parte devido à precarização das redações nos últimos anos. Era comum apresentar a fala de uma autoridade e deixar a conclusão sobre sua veracidade para o leitor. O jornalismo deu uma acordada e passou a ser mais assertivo. Um exemplo: Bolsonaro disse algo sobre a vacina, mas estudos desmentem o que ele falou", explica a diretora da Lupa.
Década de checagem
Primeira a completar dez anos, a agência Aos Fatos divulgou os principais números alcançados durante a década. Foram mais de 19 mil checagens: 15 mil delas atestaram a veracidade das declarações de 167 figuras públicas e quase 4 mil desmentiram boatos nas redes sociais.
Os temas predominantes foram desinformação política e eleitoral, presentes em 2.105 das checagens. Outro tema de destaque foi saúde, foco de 594 checagens. O ano de 2020, quando foi declarada a pandemia de covid-19, teve o maior número de declarações checadas, 718, com destaque para a questão das vacinas.
Outra cobertura importante foi a de 1.459 dias de governo Jair Bolsonaro. A plataforma checou 1.610 declarações do ex-presidente, que continham 6.685 afirmações falsas ou distorcidas. Em média, Bolsonaro mentiu ao menos quatro vezes por dia, segundo a Aos Fatos.
A diretora executiva Tai Nalon entende que, apesar dos avanços alcançados no combate à desinformação, novos desafios têm surgido.
"Existe um movimento de algumas plataformas digitais de retirar mecanismos de moderação e checagem de fatos. Elas automatizam tantos processos que acabam se tornando ineficientes. Não vai ser uma inteligência artificial sozinha que vai conseguir combater desinformação em escala. Deveríamos estar investindo mais em checagem e moderação de conteúdo, porque há uma sobrecarga de informação e menor capacidade de discernir o que é falso", avalia.
As próprias organizações que fazem checagem de fatos têm sido alvos de campanha de desinformação.
"Há essa retórica de alguns grupos políticos, especialmente da extrema direita, de que checagem de fatos é parte de um projeto autoritário. E isso é uma grande teoria da conspiração também. Organizações que foram criadas para verificar informações são elas próprias atacadas com desinformação. E é claro que nosso trabalho não se trata de censura, se trata de jornalismo, se trata de trabalhar o contraditório, de liberdade de imprensa e de expressão", defende.
Reinvenção
Para comemorar os dez anos, a Agência Lupa prepara até dezembro uma mudança no site, com ferramentas e projetos novos. Um dos destaques da cobertura deste ano será a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) em Belém: um selo Lupa no Clima para verificar notícias falsas e negacionismo climático.
A diretora Natália Leal defende que é preciso atualizar e criar novos elementos para lidar com os desafios de desenvolvimento das plataformas de checagem e alcançar novos públicos.
"Temos uma crise de financiamento do jornalismo. Checagem é jornalismo e essa crise também nos atinge. Então, estamos sempre diversificando o trabalho para manter nosso negócio relevante, mas também para atender um público que está cada vez mais exposto a essa desinformação", diz Natália.
"As principais plataformas de checagem chegam aos dez anos no Brasil muito voltadas para uma reinvenção constante. Estamos conseguindo evoluir no que fazemos e na forma como nos conectamos com as pessoas. Esse é um ativo muito importante e é o que vai nos levar adiante. Espero que por mais dez anos aí pela frente", complementa.
Com informações da Agência Brasil