GUILHERME BOMBA

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A arrogância de quem nunca duvida

Da Redação

| Edição de 22 de outubro de 2026 | Atualizado em 22 de outubro de 2026

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Tenho sentido falta de pessoas que não sabem. Não das que transformam a ignorância em orgulho, mas daquelas capazes de reconhecer os limites do próprio conhecimento. Gente que interrompe uma discussão para considerar uma possibilidade incômoda: talvez eu esteja errado. Parece pouco. Mas, em um tempo em que todos precisam opinar sobre tudo, admitir uma dúvida soa como fraqueza. A certeza ganhou o prestígio que antes pertencia à reflexão.

Basta observar uma conversa qualquer. Antes que alguém termine de falar, o outro já prepara a resposta. Não escutamos para compreender, mas para encontrar uma brecha por onde fazer passar nossas convicções. Nas redes sociais, condena-se alguém com uma rapidez que dispensa o cuidado de conhecer os fatos. Nas famílias, nos ambientes de trabalho e até nas escolas, discordar pode parecer uma afronta pessoal. Deixamos de discutir ideias para defender a imagem que construímos de nós mesmos. Mudar de opinião, nesse cenário, seria quase uma confissão de derrota.

É curioso que a tradição filosófica tenha nascido, em grande medida, do gesto contrário. Sócrates incomodava porque perguntava, sobretudo àqueles que julgavam possuir respostas definitivas. Séculos depois, Montaigne transformaria o “Que sei eu?” em exercício de humildade diante da complexidade humana. Não se tratava de abandonar a verdade, mas de reconhecer que procurá-la exige admitir que ainda não a possuímos por inteiro. Há uma diferença imensa entre ter convicções e imaginar que elas nos dispensam de pensar.

Talvez esse seja o equívoco mais perigoso: confundir firmeza com inflexibilidade. Podemos defender princípios e tomar decisões difíceis sem tratar toda discordância como ameaça. A dúvida não precisa nos tornar indiferentes. Às vezes, ela nos torna mais responsáveis, pois exige examinar por que julgamos, acusamos ou escolhemos. Hannah Arendt, ao refletir sobre a relação entre pensamento e responsabilidade, mostrou quanto pode custar a renúncia ao exercício de pensar por si mesmo. Nem sempre o problema está na falta de informação. Às vezes, está na disposição de aceitar respostas prontas porque elas nos poupam do desconforto de questionar.

O orgulho, porém, cobra um preço silencioso. Quantas amizades terminam porque ninguém admite um exagero? Quantas famílias convivem com ausências que um pedido de desculpas poderia evitar? Quantas injustiças se prolongam porque alguém, investido de alguma autoridade, prefere preservar a própria imagem a reconhecer um erro? Muitas vezes, não nos falta inteligência para perceber o equívoco. Falta-nos coragem para suportar a ideia de que fomos nós que o cometemos.

Não precisamos concordar sobre tudo. Seria empobrecedor se concordássemos. Precisamos, isto sim, recuperar a capacidade de permanecer diante de uma pergunta sem correr imediatamente para uma resposta que nos tranquilize. Ouvir sem transformar o outro em adversário. Rever sem sentir que perdemos nossa identidade. Ensinar às crianças que pensar não é repetir com segurança, mas aprender a investigar com honestidade. Talvez a maturidade não esteja em chegar ao ponto de nunca mais duvidar, e sim em descobrir quais certezas merecem sobreviver às nossas perguntas.

Afinal, talvez o maior perigo do nosso tempo não seja a quantidade de pessoas que desconhecem a verdade, mas a quantidade daquelas que já não admitem a possibilidade de procurá-la.