Hoje, Anna faz 11 anos. Amanhã, João completa 6.
Entre uma data e outra, quem também celebra sou eu.
Não no calendário. Por dentro.
Quando Anna nasceu, eu ainda era feito de certezas. Sabia explicar o mundo, organizar ideias, sustentar argumentos. Mas não sabia segurar aquele corpo minúsculo sem sentir que carregava o próprio universo nos braços. Foi ela quem me ensinou que coragem é permanecer mesmo tremendo. Que amor não é discurso, é presença.
Anna me fez pai da escuta. Enquanto aprendia a escrever o próprio nome, eu aprendia a ouvir de verdade. Suas perguntas alargaram meus horizontes. Seus silêncios também. Crescer com ela foi descobrir que firmeza pode andar de mãos dadas com ternura.
E amanhã, quando João completar 6 anos, celebrarei o menino que entrou na minha vida como um vento doce e transformador. Ele não atravessou apenas a porta da casa. Ele atravessou minhas estruturas. Com João aprendi que cada criança tem seu próprio ritmo, sua própria música. Que comparar é ferir. Que cada passo é um Everest particular.
Se Anna me ensinou que o tempo corre, João me ensinou que o tempo precisa ser vivido devagar. Um já ensaia voos mais altos. O outro ainda constrói universos no tapete da sala. E eu, entre eles, vou sendo redesenhado.
Já pedi desculpas mais vezes do que imaginei. Já abracei antes de explicar. Já agradeci em silêncio por ter sido escolhido para ser chamado simplesmente de pai.
Eles não sabem, mas me salvaram de uma versão mais rígida de mim mesmo. Tornaram-me mais atento, mais sensível, mais humano. Ainda imperfeito, é verdade. Mas disposto.
Hoje celebro 11 anos da minha menina.
Amanhã celebrarei 6 anos do meu menino.
E todos os dias celebro a transformação mais profunda da minha vida:
vocês não apenas cresceram.
Vocês me cresceram.