Na esquina da Rua Ponta Grossa, onde o asfalto ainda guarda memórias de outros desfiles, Miguel encostou a cadeira na calçada para assistir ao Carnaval passar.
Ele sempre fazia isso. Não vestia fantasia. Não carregava serpentina. Não dançava. Apenas observava.
Os blocos começaram tímidos, depois ousados. Cores atravessaram a rua como se o mundo tivesse decidido, por alguns dias, não levar a si mesmo tão a sério. Havia penas, brilhos, risadas largas demais para caberem na boca. A bateria pulsava como um coração coletivo, lembrando que ainda estamos vivos, apesar de tudo.
Miguel sorria. Mas o sorriso dele tinha história.
Quando jovem, fora o primeiro a puxar o cordão. Sambava como quem exorciza a semana. Tinha amigos que hoje são fotografias guardadas em caixas, tinha amores que evaporaram com o tempo, tinha uma fé quase infantil de que a alegria era permanente.
Descobriu depois que alegria é visitante, não moradora.
Aos poucos, o Carnaval lhe ensinou uma coisa que os livros nunca disseram com tanta clareza: toda festa carrega um pequeno luto escondido. Porque ela termina. Porque revela o quanto desejamos que o mundo fosse sempre assim... leve, colorido, musical.
Enquanto os foliões passavam, uma menina pequena escapou da mãe e começou a dançar sozinha no meio da rua. Girava com os braços abertos, como se abraçasse o ar. A mãe ria, o pai filmava, alguém aplaudia.
Miguel sentiu um nó discreto na garganta.
Não era tristeza pura. Era saudade do que já foi e do que ainda poderia ser. Era a consciência de que a alegria não anula a dor; ela a suspende por alguns compassos.
O Carnaval tem esse poder curioso: autoriza a felicidade sem pedir explicações. Permite que o padeiro vire rei, que a professora vire sereia, que o homem sério pinte o rosto e ria de si mesmo. Por alguns dias, somos menos rígidos com nossas próprias falhas.
E talvez seja isso que incomode alguns.
Há quem critique, há quem despreze, há quem veja apenas exagero. Mas, no fundo, o que se celebra não é o excesso. É a liberdade breve de ser inteiro, inclusive com as próprias cicatrizes.
Quando o último bloco virou a esquina, restaram papéis coloridos no chão e um silêncio quase constrangedor. Miguel levantou-se devagar. Olhou a rua agora vazia e pensou que o Carnaval é exatamente isso: um espelho.
Ele mostra o quanto precisamos da alegria. E revela o quanto ainda carregamos de tristeza. Não são opostas. São irmãs.
A alegria do Carnaval não é negação da dor. É resistência. É dizer, com o corpo inteiro, que mesmo em meio às ausências, às contas, às notícias pesadas e às perdas silenciosas, ainda ousamos dançar.
E talvez amadurecer seja isso: entender que não precisamos escolher entre o confete e o silêncio.
Precisamos aprender a conviver com ambos.
Porque, no fim, a vida não é só quarta-feira de cinzas.
Mas também não é desfile permanente.
É essa dança imperfeita entre o riso que explode e a lágrima que insiste.
E quem entende isso, mesmo sentado na calçada, já está sambando por dentro.