Há algo de estranho nas escolas abertas aos domingos. Os corredores que durante a semana recebem cadernos, mochilas e crianças passam a receber documentos nas mãos e adultos em silêncio. As salas ganham mesários. As carteiras mudam de função. E, por alguns minutos, cada pessoa fica sozinha diante de uma urna.
Depois de meses de discursos, debates, pesquisas, vídeos, acusações, promessas, mensagens e certezas, tudo termina num gesto quase banal.
Alguns números. Uma confirmação. Um pequeno som. E pronto.
Talvez seja essa uma das imagens mais bonitas da democracia: há muito barulho antes da urna, mas o voto acontece em silêncio.
Às vésperas de mais uma eleição, não pretendo dizer aqui em quem alguém deveria votar. Há espaços demais tentando fazer isso. Interessa-me outra pergunta: o que fizemos com o dia da eleição?
Votar deveria ser também um exercício de convivência. Não apenas escolher representantes, mas reconhecer que outras pessoas, tão cidadãs quanto nós, podem olhar para o mesmo país e enxergar caminhos diferentes.
Parece simples. Não tem sido.
Transformamos divergências em suspeitas morais. O adversário político deixou de ser apenas alguém que pensa diferente e, muitas vezes, passou a ser tratado como alguém que precisa ser derrotado também fora das urnas. Amizades se desgastam. Famílias evitam assuntos. Pessoas deixam de conversar porque passaram a acreditar que ouvir o outro significa conceder-lhe razão.
E há o medo.
Não quer dizer que não existem riscos reais nos resultados de uma eleição, de fato isso é coisa séria a se debater. Entretanto, conseguimos destruir muito com o medo da destruição. A política tem se tornado arma que fere, que justifica o que sempre foi injustificável – e ainda o é -, uma desculpa para que o que sempre foi imoral, e até ilegal, seja vestido com as cores de posicionamento político.
Poucas emoções substituem tão facilmente uma pergunta difícil por uma resposta rápida. Quando temos medo, queremos proteção, culpados, garantias. Queremos alguém que nos diga que compreendeu perfeitamente o tamanho da ameaça.
Talvez por isso, durante uma eleição, tantas mensagens nos convidem não apenas a imaginar o país que desejamos, mas a temer o país que poderia existir caso determinada escolha fosse feita.
Some-se a isso a avalanche de informações. Um vídeo de segundos explica uma trajetória inteira. Um recorte encerra uma discussão. Um print vira documento. Uma manchete confirma aquilo em que já acreditávamos.
Nunca tivemos tanta informação disponível para escolher. Talvez nunca tenha sido tão difícil decidir o que fazer com ela. E não se trata apenas de distinguir o verdadeiro do falso. Trata-se também de desconfiar daquilo que gostaríamos muito que fosse verdade.
No domingo, depois de todo esse ruído, haverá silêncio novamente. Cada eleitor ficará sozinho diante de sua escolha. Nenhum grupo de mensagens apertará as teclas. Nenhuma discussão de família segurará a mão de quem vota.
Mas há algo ainda mais importante: a segunda-feira.
Quando a eleição acabar, continuaremos precisando uns dos outros.
O vizinho continuará sendo vizinho. O professor entrará em sala. O padeiro abrirá a padaria. O médico atenderá quem chegar. Pais continuarão buscando filhos na escola. Pessoas que votaram de maneiras diferentes dividirão elevadores, empresas, igrejas, mesas e ruas.
A democracia não existe apenas porque podemos escolher quem governa. Ela também depende da nossa capacidade de continuar vivendo juntos depois da escolha. Talvez tenhamos nos preocupado tanto em convencer os outros sobre em quem votar que esquecemos de perguntar o que deveria ser mais importante depois que apertamos “confirma”.
Não apenas em quem você votou, mas quem você decidiu continuar sendo depois do voto.